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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Psicodrama, Teatro do Oprimido, Constelação Familiar... e Larp.

O início do mês de agosto de 2026 foi palco do evento Role - VI Simpósio sobre RPG, Larp e Educação. É a sexta edição do evento considerando os simpósios de RPG e Educação dos anos 2000, e o segundo de sua versão moderna, que teve início em 2024, passou a ser online e bienal e além de receber o nome próprio "Role", ganhou também a adição do "Larp" entre o binômio "RPG & Educação".

Nessa edição, consegui estar um pouco mais próximo do evento do que em edições anteriores. Especialmente, estive no grupo de whatsapp do evento durante toda a realização. Faço parte desse grupo já há alguns meses, desde que alguns participantes do ArtPart Grupo de Estudos me colocaram para dentro.

Não costuma ser um grupo muito movimentado ao longo do ano, mas isso muda durante o evento. Tanto a educação quanto o RPG (e o larp!) são meios bastante diversos no que diz respeito a origem e formação de seus integrantes. Sendo um evento acadêmico, ainda, acho que temos a diversidade de pensamento exponencializada: muita gente que estuda profundamente uma enorme diversidade de assuntos.

Eventualmente, algum participante do debate levantou a possibilidade de fazer um "RPG sobre um tabuleiro em tamanho natural" (ué) e outro integrante do grupo sugeriu que se poderia dar uma olhada na Constelação Familiar, que seria mais ou menos isso. O que seguiu a partir daí foi uma sequência de mensagens muito acaloradas sobre a natureza, o uso ou não-uso, as origens e mais uma série de questões sobre a prática que, se você não conhece, recomendo fortemente que procure conhecer (e apresento alguns caminhos para isso no final desse posto). Algumas pessoas, tentando minimizar o clima bélico que se instaurou, indicaram o psicodrama, o teatro do oprimido.... *E ninguém falou em larp*. A moderação foi chamada várias vezes para intervir - e interveio - mas a medida que mais pessoas liam o começo do debate e respondiam aquelas primeiras mensagens, mais a conversa crescia.

Esperei um pouco a conversa esfriar, respirei fundo e mandei as seguintes mensagens, que reproduzo aqui porque acredito que a linha de raciocínio possa interessar mais pessoas, que não estavam ali naquele contexto. Além do quê, é uma discussão que está bastante madura dentro do contexto larp, mas não está registrada na internet em parte alguma.

[09/08, 10:04] Luiz Falcão: 

Pessoal,

Tá parecendo um campo minado esse grupo aqui de vez em quando, né?

Mas vou arriscar deixar uns 2 centavos aqui sobre o assunto.

Vou tentar não avançar nenhum sinal 🙏🙏🙏

O psicodrama é uma parada interessante da gente ter uma compreensão melhor do que é - e a partir daí, dá para tocar o teatro do oprimido e até a constelação familiar sem entrar nos pormenores.

O psicodrama não segue uma linha de psicoterapia porque ele É uma linha de psicoterapia.

A figura que cria o psicodrama é um cara importante pra gente, que é o Jacob Levy Moreno, criador também do Teatro da Espontaneidade e do Sociodrama (outras coisas legais de dar uma pesquisada).

Slide de Jacob Levy Moreno, o criador do psicodrama, na minha apresentação "RPG além das Caixas: diversidade e tradições nos jogos de faz de conta", como realizada na 6ª edição do evento PenhaGeek, na Zona Leste de São Paulo.

É o Moreno que cria a noção de roleplay como usamos nos jogos de RPG, e é inclusive por conta do uso que ele faz do termo que os RPGs são chamados assim.

Primeira edição do D&D descrevia o jogo como "Regras para Campanhas de Jogos de Guerra Medievais Fantásticos, jogáveis com Lápis e Papel e Miniaturas". O termo "Fantasy Role-playing Games" só apareceria nas versões de 1981 do jogo, inclusive reivindicando-se como "original", uma vez que RPG era como seus concorrentes passaram a se denominar antes dele.
Existe uma história relativamente bem documentada de como esse termo sai dali, da pesquisa do Moreno, e passa a ser associado ao D&D que, no início, não era chamado de RPG.

Dizer que o RPG ou o Vampiro usam psicodrama é um pouco impreciso.

Eles podem usar recursos do psicodrama, mas psicodrama, mesmo, é a prática clínica conforme organizada pelo Moreno.

Existem, inclusive, jogos psicodramáticos. Tanto de RPG quando de larp. Mas a prática clínica psicodrama é isso: uma prática clínica.

O que faz a gente associar o psicodrama, o teatro do oprimido e até a constelação familiar com os RPGs é porque todos eles operam essa noção de roleplay que foi estabelecida a partir do Moreno.

Roleplay como uma coisa diferente de "play a role".

Quem tem curiosidade sobre as origens do RPG, é legal empreender essa pesquisa. Posso indicar leituras, vídeos, etc para quem quiser se aprofundar.

Agora...

Sei que nem todo mundo é familiarizado ao larp, embora muitos conheçam "por cima".

Muito do que a gente aponta como similaridade e potencialidade dessas práticas com o RPG pode ter uma resposta interessante através do larp.

Existe uma corrente amplamente difundida internacionalmente - e da qual eu certamente faço parte - que considera o larp uma linguagem.

Nessa acepção, psicodrama, teatro do oprimido e constelação familiar dão todos (ou pelo menos tem todos elementos de) larp.

Sei que para muitos é uma afirmação polêmica e tudo bem. É uma acepção possível, dentro dessa noção do larp como linguagem.

Então, psicodrama é uma prática clínica.

Teatro do Oprimido é uma prática artística (e o teatro fórum, teatro legislativo, arco-íris do desejo, são desdobramentos dessa prática que se estendem por outras áreas)

E constelação-familiar.... Enfim, é discutível. Certo?

Mas todos utilizam o roleplay num eixo dramático, de representação dos personagens/papéis por meio do próprio corpo...

Portanto, larp.

O RPG faz o roleplay por meio da narração, declaratória, e não da representação física - e pode sim também pegar emprestados recursos dessas outras práticas, desses outros contextos.

Essa é a verdade absoluta? Incontestável?

Não, não.

Mas é uma forma possível de ver as coisas.

Se formos a fundo, *todo o RPG é influenciado pelo psicodrama* 😅

Ainda que indiretamente

Sobre a constelação familiar, para quem se interessou pela polêmica do tema, muito conteúdo foi produzido a respeito nos últimos anos, justamente porque houve uma penetração orquestrada nos sistemas de justiça, saúde e educação aqui no Brasil.

Há muitos podcasts, textos, reportagens, investigando os casos e eu indico alguns:

O episódio do O Assunto da globo é um excelente podcast sobre Constelação Familiar.

O Medo e Delírio traz um áudio resumindo a questão no episódio Dias 272 a 276. No aparte, a partir do minuto 49:39.

E eu gosto muito desse aqui também, da Rádio Escafandro: episódio #77 – A constelação familiar e o pseudodireito. Embora ele possa soar um pouco debochado para quem quer uma visão mais "imparcial".

Espero não ter ultrapassado nenhum limite e ter sido cuidadoso com a abordagem dos temas

E já peço desculpas de antemão caso tenha cometido algum deslize 🙏🙏🙏

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

O Larp Nórdico não é bem assim - Podcast Tomos Revelados


Faz um tempinho que saiu esse podcast que conta com uma contribuição minha.

Os rapazes também citam um texto do Luiz Prado publicado na RedeRPG, RPG e Larp: qual é a diferença?.

Eu acho que o ponto de partida dos caras é muito fraco (um texto ruim publicado na gringa). Mas os caras mandam bem na investigação a partir do texto.

Fica a recomendação!


Podcast: https://open.spotify.com/episode/21nUuyBP0ihZCtKYC9aF9N?si=O5qORpniRQiiKPF3c0MmEQ

Texto original: https://retiredadventurer.blogspot.com/2021/04/six-cultures-of-play.html


O texto original acerta ao partir do princípio que o RPG é constituído a partir de muitas e diferentes culturas de jogo - mas é só isso. O tentar delimitar quais seriam essas culturas (ou as principais delas), logo escorrega no simplismo e no preconceito.

Toda generalização vai errar, não tem jeito. Mas até por isso, quando generalizamos precisamos ser cuidadosos. Não parece ter sido o que houve na composição do texto original, Six Cultures of Play.

Todo mérito do podcast vai todo para o pessoal da Moira Games,  que além de traduzir textos estrangeiros para o Português (o que por si só já é muito bacana), no podcast Tomos Revelados lê, comenta e chama convidados para comentar o texto de acordo com os temas que o texto levanta. Excepcional!

Além de mim, o Felipe Tuller e o Mink convidaram o Newton Rocha, o Rafael Balbi, a Ana do praquemgosta e o Samuel Hernandez para falar sobre alguns pontos do texto.

Para quem preferir ler o texto por si mesmo, Seis culturas de jogo está disponível no site do Tomos Revalos.

Abaixo, a transcrição dos áudios que eu mandei para o Felipe a respeito do trecho que le me pediu para comentar.

Fala Felipe, aqui é o Luiz Falcão falando. E sobre esse texto que você mandou, esse trecho sobre o Nordic Larp é bem esquisito na verdade. Ele não descreve muito bem o que é o Nordic Larp ele faz parecer que o autor leu uma coisa ou outra na internet e completou o resto com a imaginação dele. É um texto bem desdenhoso e preconceituoso na verdade, cheio de clichês e caricaturas. O termo Nordic Larp é, e sempre vai ser, um termo em disputa, mas ele definitivamente não se refere a jogos de mesa, é sobre Larp mesmo.

Eu vou evitar comentar ponto a ponto do que tá esquisito nesse trecho porque acho que o foco é falar sobre a cultura do Larp no Brasil, e eu acho que gente consegue dividir - como talvez fosse possível fazer também no Nordic Larp - não numa única cultura, mas em algumas culturas que constituem essa cultura maior.

No caso do Brasil, a gente tem, ao ver, no meu entendimento, três culturas bem definidas, mas que dialogam entre si, se contaminam umas às outras, influenciam umas às outras. A primeira delas é muito ligada aos jogos de RPG, que são os larps de Vampiro e dos outros títulos da White Wolf, né? É o larp de Vampiro que inaugura o Larp no Brasil. O Vampiro: A Máscara é muito popular, inclusive no formato live action, que é como ele ficou muito conhecido e popular aqui no Brasil a partir dos anos 90. Inclusive esse ano a gente tá fazendo 30 anos de Larp brasileiro. E o marco inicial aí dessa contagem é o primeiro larp de Vampiro organizado oficialmente em um evento em 1994.

Também dá para destacar o Boffer Larp, que são os larps que usam espadas de espuma. Esse termo boffer tem a ver com as espadas de espuma, é um termo norte-americano para isso. Hoje o pessoal fala muito em swordplay, mas o swordplay são as práticas com a espada de espuma, e o Boffer Larp é o larp propriamente dito, usando dessa tecnologia Se o larp de vampiro começa em 94, o larp de espada de espuma a gente rastreia mais ou menos até meados do ano 2000, né?

Então a gente acredita que os primeiros grupos [de boffer larp] apareceram nesse meio tempo, mas um grupo de relevo, de destaque, é o Graal, que começa aqui em São Paulo fazendo eventos numa chácara, num sítio. Aos finais de semana. E aí são histórias de fantasia, de fantasia medieval. Um pouco inspiradas pelo D&D e acho que muito carregadas pelo clima que tinha nessa época com os filmes do Senhor dos Anéis, que estavam para estrear ou estavam estreando nos cinemas e que acabaram congregando aí o pessoal que curtia medievalismo e fantasia medieval. 

...

 Mesmo esses larps de fantasia medieval aqui no Brasil, eles já tem um pouco um input dessa tradição que começa lá no Vampiro à Máscara, né? Mas aí a gente fala da terceira tradição ou da terceira cultura que eu vejo com bastante identidade própria aqui no Brasil, que talvez tenha origem a partir dos jogos de Vampiro: A Máscara, mas um pouco influenciado pelos eventos de RPG.

A Confraria das Ideias, que é uma grande representante dessa terceira tradição, começa fazendo um jogo de Vampiro Máscara no final de um evento de RPG, e aí vira uma tradição fazer larps ao final de eventos de RPG. Mas eles abandonam o Vampiro: A Máscara a partir do segundo larp que eles fazem e vão explorar outros temas.

Eles também abandonam sistemas de RPG. Não foi o único grupo a fazer isso, a gente tem outros grupos que a gente poderia mencionar o grupo Enigma, por exemplo, em Curitiba, Até certo ponto o grupo CLAN, do Rio de Janeiro, que fez bastante larp de Vampiro e dos jogos da White Wolf, mas fazia outros temas também.

Enfim aí a gente poderia seguir acumulando exemplos a respeito disso, né? Que aí eu vou dizer que é um larp, larp mesmo, assim, sem um adjetivo né? Porque a primeira tradição que é o Vampire Larp, e a segunda que é o Boffer Larp, eu entendo que eles têm esse qualificador que os agrupa. Agora, o resto todo, eu acho que ele acaba fazendo parte dessa tradição, que é de entender o larp de maneira autônoma e flexível dentro de temáticas, dentro de propostas de jogabilidade...

E aí, lá para 2011, 2012, 2013, o NpLarp, que é o grupo que eu faço parte, acaba fazendo uma extensa pesquisa a respeito do Larp, além das fronteiras brasileiras, dentro das fronteiras brasileiras também, mas além das fronteiras brasileiras [inclusive] e a gente acaba tomando contato com o Larp internacional e o Nordic Larp. Inclusive é nessa época que o livro que se chama Nordic Larp sai, em 2010, e acaba ganhando um grande relevo na comunidade internacional.

São quatro países, eles fazem um evento entre si, os eventos são em inglês então isso fez com que chegasse mais longe a produção cultural e intelectual deles. E aí acaba tendo uma grande influência do Larp Nórdico, mas não só no Larp Nórdico [mas também] no Larp brasileiro. E aí de lá para cá, esse eixo vem se desenvolvendo bastante, essa tradição do Larp enquanto uma linguagem autônoma.

Acho que mais ou menos é isso, essa tradição... A tradição, claro, do Vampiro: A Máscara ainda tem bastante ligação com jogos de RPG. Quando saiu a quinta edição do Vampiro teve um certo revival, embora nunca tenham parado os lives de Vampiro: A Máscara, né? Mas teve grupos aí voltando ou se rearticulando um pouco em função do hype da quinta edição. O Larp Medieval teve algumas experiências bem interessantes pelo Brasil. De maneira geral também, ele nunca deixou de existir mas arrefeceu bastante, embora você tenha grupos bastante longevos, como Batalha Cênica Salvador, o Graal MG, que hoje é o Crônicas ou o Graal RJ, que hoje é o Santuário. Mas talvez teve uma redução na prática desse tipo de larp.

Mas que existir, existir... sempre existiu. A gente vê que essas tradições não desaparecem, elas sofrem influências umas das outras, mas elas continuam seguindo os seus percursos. 

...

Rapaz, pensando aqui agora, depois de gravar esse áudio eu acho que a gente já pode falar numa quarta tradição já, que são esses lápis estilo faça você mesmo, que costumam ter um roteiro um manual, etc. Para os jogadores lerem e jogarem por si mesmos, às vezes com o organizador, às vezes com todos os jogadores tendo consciência do jogo como um todo.

Essa tradição é muito amalgamada com a outra, a terceira, mas acho que constitui uma cultura ou escola própria, por assim dizer. Para quem tiver curiosidade, tem um site que é o larpbrasil.blogspot.com, que reúne uma grande quantidade desses roteiros, muitos deles produzidos aqui no Brasil, já. Mas também alguns deles gringos de outros países.

Pode ser bacana para conhecer também.

 

Os áudios foram transcritos com ajuda da web.descript.com

sábado, 6 de abril de 2024

Em 2014, 20 anos do larp brasileiro

Faz dez anos que o Wagner Luiz Schmit apresentou meu artigo New Tastes in Brazilian Larp: from dark coke to caipirinha with Nordic ice no Knutpunkt, conferência internacional de Larps na Suécia.

Eu participei por videoconferência no finalzinho porque me atrapalhei com a programação e o fuso horário 🤷


Naquela época, eu não tinha me dado conta, o larp brasileiro estava prestes a fazer 20 anos. Acho que foi o primeiro esforço de uma historiografia do larp até aquele momento, e não sei se houve alguma outra desde então.

E esse ano, o larp brasileiro está prestes a fazer 30 anos!

De lá para cá, é claro, muita água rolou! Será que eu ainda consigo arriscar algumas linhas?

Quem quiser ler o artigo, vou deixar links relacionados abaixo

--

O artigo New Tastes in Brazilian Larp: from dark coke to caipirinha with Nordic ice foi publicado no Knutpunkt Book de 2014, chamado The Cutting Edge of Nordic Larp (algo como 'O fio da navalha do Larp Nórdico' ou mais literalmente, 'a borda cortante...'). O tema do evento naquele ano era Sharpening the Cutting Edge e excepcionalmente foram publicados 2 livros - para os Nórdicos também foi um momento de revisar a trajetória, com o livro The Foundation Stone of Nordic Larp, uma coletânea de textos fundamentais para a tradição do KP. 

A apresentação também está disponível integralmente na internet.

Pouco tempo depois, uma tradução desse artigo foi publicada em português, na Revista Mais dados, intitulada Novos Sabores do Larp Brasileiro - Da coca-cola à caipirinha com gelo nórdico, hoje disponível no Academia.edu. Tragicamente, essa edição colocou todas as fotos agrupadas no final.

domingo, 3 de março de 2024

Is just to love and be loved in return

Gatite partiu na quinta-feira dia 22 de fevereiro, por volta de 11hs.


Ela entrou na nossa vida durante a pandemia de COVID 19, em 2020. 

Foi em Julho. A Íris já estava há alguns meses sem ir para a escola (e ficaria muitos mais) e eu estava com o pé recém quebrado. Para complicar, o proprietário pediu a casa em que morávamos de aluguel. Natascha estava aqui para nos ajudar a lidar com as novidades.

Foi nesse contexto intenso que a Gatite veio para as nossas vidas. Ela já me visitava de tempos em tempos para pedir carinho. Mas naquele julho ela se sentiu mais à vontade para entrar dentro de casa.

A Natascha facilitou um pouquinho e a Gatite acabou ficando. Aliás, escolhendo ficar. Não era um filhote, era um gatão grande e bem cuidado que, aparentemente, trocou a casa em que vivia pela nossa. As portas e janelas estavam sempre abertas, mas desde que chegou ela nunca passou um dia fora.

Eu nunca conheci uma pessoa felina tão amável e carinhosa como a Gatite.

Depois de um tempo, fizemos a mudança como o previsto - de um sobrado com 3 quintais e árvore no jardim para um pequeno apartamento. Me preocupei se a Gatite ia se adaptar. Se adaptou.

Vivemos três anos juntos ali no apartamento. Compramos até uma coleirinha para passear.

Em novembro de 2023, a Gatite, que sempre foi muito grande, perdeu muito peso. Uma noite, vomitou a madrugada toda e ninguém em casa conseguiu dormir. No dia seguinte, levamos na Dra Natália, veterinária.

Dali uns dias estava internada. Tomando remédios. Fazendo ultrassom. Comendo comida especial.

Foram 4 meses em que os cuidados se intensificaram a cada semana - e as oscilações dos gastos deixavam muito claro que não ia sobrar dinheiro algum.

Quando foi preciso fazer a transfusão em fevereiro, já não havia dinheiro algum. Mas não pudemos negar esse cuidado.

Entrei para o tal mercado de futuros (no futuro eu pago) e no início de fevereiro, a Gatite parecia estar ressuscitada!

Ela entrou na internação duas vezes definhando, e nas duas vezes saiu de lá com a energia de um gatinho jovem.

Foi nessa saída da segunda internação, depois da transfusão, quando o gasto semanal com remédios dobrou, que o Godoy perguntou se podia ajudar fazendo uma Vakinha.

Além do dinheiro, as rotinas de cuidado eram muito extenuantes. Num dia, soro subcutâneo. No outro, injeção. Na enfermaria lá de casa mesmo. Todos os dias, um amplo coquetel de remédios que, no fim, Gatite aprendeu a tomar e eu aprendi a administrar. E ainda duas vezes por semana íamos ao veterinário, muitas vezes colher exames.

Mas mesmo com todos esses cuidados. Mesmo gastando o que tínhamos e não tínhamos de nosso próprio dinheiro, próprio tempo e própria saúde, em duas semanas a Gatite voltou a piorar muito rapidamente.

Voltamos a realizar exames determinantes - para entendermos se ainda havia o que fazer para ajudá-la ao mesmo tempo em que, pelo andar das coisas, já nos entendíamos nos despedindo dela.

Os gatos, ao que nos consta, não costumam demonstrar muito claramente o sofrimento. Não são de reclamar, por assim dizer. Talvez por isso, a gente não via a Gatite piorando. Ela simplesmente piorava, de um dia para o outro. E piorava muito.

Buscamos estar do lado dela em todos esses momentos, como ela também buscou estar do nosso.

Gatite gostava de toque, de carinho, de colo. Não é que ela "deixava" pegar no colo. Ela vinha até nós para que a gente a pegasse no colo.

Dormia com a gente, abraçava (você já viu um gatinho abraçando?), lambia nosso rosto, gostava que a gente segurasse as patinhas dela (como quem dá as mãos para alguém) e às vezes ela própria inventava jeitos de segurar a nossa mão.

Por fim, os exames revelaram que não havia mais possibilidade de melhora. A única sobrevida possível seria baseada num ciclo de transfusão, aumento do sofrimento e nova transfusão. Não fazia sentido.

Assim, nos despedimos  da Gatite no dia 22/02. (Para falar a verdade, ainda estamos nos despedindo de certa forma).


Com muita, muita, muita tristeza, mas com igual gratidão por todo o tempo que passamos juntos.

Ela nos escolheu. E nós a escolhemos de volta como resposta.

Gatite entrou para a nossa família em um momento bastante sensível. Foi uma companhia muito importante para a Íris especialmente durante a Pandemia (a Íris tinha 9 anos quando a pandemia começou, ia passar muito, muito tempo sem a presença de outras crianças e muito muito tempo convivendo apenas comigo). Mas igualmente foi muito importante para mim e para a Natascha.

E para todo mundo que nos visitava quando as visitas voltaram às casas das pessoas com o fim da quarentena. Não teve ninguém que a Gatite não tenha recebido com carinho.

A todos esses amigos (seja os que a conheceram pessoalmente ou apenas virtualmente) deixamos nossa gratidão.

Depois de me despedir da Gatite, um trecho da uma canção veio a minha mente e eu acho que ela ilustra poderosamente nosso encontro. Em especial os versos a seguir, que já deixei em outros lugares.

The greatest thing you'll ever learn
Is just to love and be loved in return

_ _ _ _

A Gatite partiu, mas a Vakinha segue funcional por mais alguns dias. Quem puder ainda assim contribuir vai estar nos ajudando a fechar as contas do mês (ainda temos alguns meses do tratamento comparecendo à fatura do cartão de crédito).
Olá, meu nome é Gatite e tenho aproximadamente 8 anos. Sou muito carinhosa, adoro aparecer em lives e reuniões online. Mas fiquei doente, precisei ser internada duas vezes e até transfusão de sangue eu fiz. Descobri que sou uma paciente renal, e que também sofro de uma forte anemia. (...)

https://www.vakinha.com.br/vaquinha/ajudem-a-gatite

terça-feira, 31 de outubro de 2023

Catábase no CCJ

Na madrugada do dia 21 para o dia 22 de outubro rolou o playtest / abertura de processo do larp Catábase - a história de uma liderança religiosa que conduz uma pequena comunidade com o auxílio de entidades que ele visita durante a noite.


Neste larp, um único jogador faz o mesmo personagem o tempo todo. Os demais se revezam em dois papéis, muito diferentes um do outro.

Eu não me lembro de alguma vez já ter feito uma experiência parecida com essa: a partir de um esboço da estrutura de um larp, reunir participantes para juntos levantarmos cenário, iluminação e combinarmos juntos detalhes da experiência enquanto ela transcorre.

Mais de dez anos atrás, quando participei da fundação do Boi Voador, o objetivo era o oposto: entregar o mais bem acabada possível uma experiência imersiva e participativa a um grupo de jogadores.

A experiência que rolou na madrugada do 13° Encontro de RPG do CCJ - Centro Cultural da Juventude foi, para mim, muitíssimo rica. Tivemos ao todo 13 jogadores e encerramos as atividades apenas às 6h da manhã. Sinal que o jogo rendeu.

Coletei feedbacks muito bacanas (que devo dividir com o público em breve) e pretendo registrar em texto como foi a experiência.

E estou animado para fazer mais vezes. 🙂

Agradeço à Confraria das Ideias pelo convite ❤ e a todas as pessoas que participaram da experiência.
Muito obrigado.


#larp #larpbrasil #catábase #katabasis

domingo, 16 de abril de 2023

10 anos do Livro Roxo

originalmente publicado no facebook em 15 de fevereiro de 2023

10 anos.

Hoje a publicação do 'guia de larp', o Livro Roxo, completa 10 anos.

Não havia muita coisa para ler sobre larp, em português, naquela época. Aliás, nem havíamos consolidado chamar o que fazemos de larp ainda (menos ainda com letras minúsculas). 

O guia pretendia trazer uma consolidação do nosso primeiro ano de pesquisa no NpLarp (financiado pelo Programa VAI). Queríamos que ele:

  •  Trouxesse uma definição justa do que é larp, mas sem repetir os preconceitos do senso comum;
  • Apresentasse a prática para além do que já era amplamente conhecido e para além da associação com os RPGs;
  • Apresentasse portas de entrada no mundo do larp, seja através de grupos em atividade, seja através de roteiros disponíveis para "fazer você mesmo" (o que era bem mais raro naquela época).
  • Encorajasse as pessoas a fazerem elas mesmas;
  • Fizesse uma tour pelo mundo, apresentando caminhos para curiosos, pesquisadores e produtores conhecerem referências para além daquelas que já manejávamos na rarefeita cena local;
  • Fosse simpático, de leitura agradável.

A roda viva veio, como sempre vem, e sucessivamente foi impedindo novas verões do material. Algumas informações que estavam ali caducaram. Certas partes não envelheceram tão bem. Muita coisa relevante que foi surgindo depois do guia simplesmente não tem qualquer pista ali... E quanto mais tempo passa, mais difícil fica atualizá-lo.

Ainda assim, o "livro roxo" segue sendo uma relevante porta de entrada e um dos materiais mais citados e reconhecidos por aí - seja em conversas inesperadas, seja em citações acadêmicas!

Mas vamos supor que eu fosse fazer uma nova versão desse livro...? 

O que precisaria mudar em relação a essa versão?

O livro 'LIVE! Live Action Roleplaying, um guia prático para o larp' é gratuito e está disponível em PDF no site do NpLarp. 

--

Pouco tempo atrás, o NpLarp e o Boi Voador também alcançaram essa meta dos 10 anos - e, por um motivo ou por outro, acabei não conseguindo fazer nada a respeito disso, nem mesmo uma postagem como esta. Fica aqui então também a minha carinhosa menção a esses marcos.

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Como encontrei o horror na Terra dos Mortos

Nalgum momento tardio dessa pandemia, já com duas doses de vacina no braço, a amiga virtual já de longa data Kyrie Flame (Graal RJ) me adicionou num grupo de WhatsApp chamado amavelmente de Larp Brasil. Logo quando entrei, alguns membros estavam compartilhando histórias marcantes que vivenciaram em larps (entre eles, Effe, Daniel Prado Cosenza, Marina Cavoli e outras pessoas já queridíssimas).

Resolvi compartilhar também e reproduzo meu relato abaixo:

As fotos deste post são do Bruno Fischer.

Tem uma foto pra ilustrar meu momento que quero compartilhar com vocês.

Eu já narrei esse momento em mais de uma ocasião (algumas delas em vídeo, gravadas e distribuídas por aí), mas nunca tive oportunidade de ilustrar.

Essa guria da foto (cujo nome eu não sei e talvez nunca tenha sabido) é parte da história  e eu sou esse camarada barbado aí à esquerda da foto.

Foi no inicinho de 2013, em Araraquara. Eu fui acompanhar a Confraria das Ideias para a primeira realização do larp RedHope: Terra dos Mortos (que no mesmo ano eu tive o prazer de produzir em outra escala e já passo um link pra vcs verem, rs).

Eu não estava familiarizado com o enredo, as mecânicas, os personagens... nada. Então eu acabei jogando...

A história de passava em um universo ficcional que eu tinha ajudado a criar muitos anos antes.

Na história, a vida na Terra tinha sido consumida por uma pandemia (sério) que transformava as pessoas em monstros (que depois viraram só zumbis). A Atmosfera ficou impregnada por esse vírus fatal e quem tinha grana deu tchaus e se mudou para estações espaciais na órbita da terra. (e além). 

Em Terra dos Mortos, um grupo de mercenários vinha para Terra para lançar na atmosfera uma cura experimental... mas a missão sofria uma sabotagem e a nave caía.

Meu personagem era o terceiro imediato.... Mas era um golpista. Ele nunca tinha participado de nenhuma missão em solo e nunca tinha sido responsável por uma espaçonave.... Ele fraudou o currículo para entrar como terceiro imediato porque achava que ia ser zica demais ter que assumir o comando. Imaginem... o capitão e o primeiro imediato iam ter que se retirar... isso não ia acontecer.

Mas aconteceu, né? 🤷‍♂️

Fiquei responsável pela missão, pela tripulação e por concertar todos os sistemas da nave... mas não fazia a menor ideia do que fazer.

Aí essa guria ficava enlouquecida entrando e saindo da nave, querendo fazer mil coisas e sempre vindo se reportar a mim. Enquanto isso, os técnicos da nave ficavam me alugando para fazer reparos nos sistemas da nave que eu nunca tinha nem visto porque eu era, basicamente, um impostor. 

Num determinado momento, ela veio desesperada - gente, desesperada - falando que todos iam morrer e que estávamos perdidos.

Eu minimizei e disse que não ia acontecer nada, que ela ia ficar bem, que os médicos iam tratar os feridos e que se não conseguíssemos decolar, íamos chamar o resgate. Ninguém iria morrer.

Ela saiu da sala e eu fiquei ali com um técnico tentando reparar um quadro de energia (um puzzle fdp que o pessoal da Confraria armou pra gente)

Alguns minutos passam e... na sala onde estávamos havia uma janela que permitia ver o lado de fora da nave.

A menina me aparece coberta se sangue, infectada. Completamente de surpresa.

Eu gelei.

Não foi meu personagem que gelou, não. Fui eu.

Eu me senti responsável pela morte daquela guria e o horror tomou conta de mim daquele momento em diante.

Ela estava certa. Todos íamos morrer. Eu estava no comando e não tinha ideia do que estava fazendo. Era tudo culpa minha e todos íamos morrer.

Dito e feito, né?

Todos morremos.

No final, ainda teve um "brinde".

Meu personagem saiu da nave armado até os dentes e foi consumido por uma horda de zumbis. 

Os jogadores, zumbificados, pularam em mim e eu tentei resistir inutilmente. 

O detalhe: o lado de fora da nave era visível para o público do Sesc (onde o Larp foi realizado). 

Minha filha de DOIS ANOS (na época) estava lá e me viu sendo devorado. Ela ficou em pânico!!!! 😱

esse guri era o técnico que estava comigo na sala....

O reconhecimento facial do facebook diz que aquela guria chama Raquel Franco...

E não achei foto dela convertida em zumbi :O Mas achei essa foto abaixo, bruxona demais.


Esse relato poderia facilmente compor a série #umlarppordia, não poderia?

Vale acrescentar que, nas fotos, dá pra ver a faísca nos olhos da Raquel. Na janela, coberta de sangue, esses olhos estavam opacos. É isso.

domingo, 30 de junho de 2019

10 anos atrás - Flash Mob e a internet contra a realidade "real"

Por acaso, precisei voltar a abrir uma caixa de email obsoleta, abandonada há muitos anos. Deu curiosidade de ver o que haveria na caixa de rascunhos e eu achei esse texto, escrito há exatos 10 anos.

Ele nunca foi terminado, mas resolvi publicá-lo mesmo assim. (sem alarde)


(e sem edições... nem reforma ortográfica, que aliás passou a valer naquele ano e ainda era novidade)



Flash Mob e a internet contra a realidade "real"


luizpires_mesmo...
Ter, 30/06/2009 00:08

Em tempos de orkut, facebook, twitter e iphone, está na moda falar que as novas tecnologias vão substituir coisas que existiam no passado. Está na moda também dizer que não vão. Nessa onda, muito se diz sobre parte da evasão que vemos no RPG nesses últimos anos ter sido ocasionada pela simplicidade e praticidade de um de seus "subprodutos" mais recentes: os MMORPGs.

Além de estarem na moda e em um ótimo momento de avanços e desenvolvimento - o que por si só já lhes garantiria bastante interesse - os MMORPGs tem algumas vantagens em relação a seus correntes como RPG tradicional de mesa e, o que vamos discutir aqui, os Live-Actions.

Instalar o programa e rodar em sua máquina, em uma internet de conexão veloz (supondo que você tenha esses recursos a mão) ou ir até a Lan House mais próxima e pagar por algumas horas de jogo. Em oposição a isso, montar uma simples sessão de RPG de mesa é quase como organizar um evento: tem que arrumar um local, confirmar a presença dos convidados (muitas vezes conhecer os convidados), garantir que todos se divertirão, descolar algo para comer. Um live então, nem se fala! Num live são ainda mais pessoas envolvidas, cenários, figurinos, um enredo e personagens previamente muito bem amarrados (num live é mais difícil tirar qualquer tipo de personagem ou evento da cartola, bem como locomover-se entre "locações").

Não só mais trabalho é necessário para começar uma partida de rpg de mesa ou live-action. Também parece haver menores, ou mais brandas, possibilidades de frustração. Os outros jogadores de um MMORPG (bem como você mesmo, enquanto jogador) provavelmente não dependem tanto de você, de seu personagem, de seu bom-humor ou disposição para com a narrativa quanto talvez dependam seus colegas de rpg/live. Especialmente se você é o mestre/narrador. Um jogador desmotivado dificilmente contaminará, em um MMORPG, todos os outros e mesmo que contamine alguns, a narrativa continua sem estes jogadores, o universo de jogo continuará existindo e disponível para quem quiser jogar. Dessa forma, em um rpg online, é muito mais simples começar e terminar uma sessão - e pode ser feito individualmente, sem grandes interferências no jogo do outro. O fator deslocamento também é praticamente nulo. Os maiores problemas que um jogador de MMORPG pode enfrentar como frustração são provavelmente conexão de internet muito lenta, queda de energia ou, quando muito, cenários desertos. O que também se contorna facilmente - procura-se outro MMORPG, ou interage-se com os non-player-characters (que no rpg online existem independente de uma amigo seu querer mestrar o jogo, ou em analogia a um live, de ter "figurantes" o bastante).

Há quem diga também que além dessa facilidade de começar/jogar/encerrar, um MMORPG tem também mais conforto que o RPG de mesa ou live. Além disso, que tem mais apelo e maior imersão, por ser um ambiente ricamente criado visualmente. Segundo essa lógica de argumentação, seria mais interessante jogar um RPG online com gráficos caprichadíssimos na Terra Média (cenário dos livros O Senhor dos Anéis) do que participar de um rpg de mesa onde o mestre apenas descreveria os ambientes - ou de um live-action, que dificilmente se aproximaria da riqueza, diversidade e magia que existem nos filmes ou jogos de computador da franquia.

Os defensores dessa teoria - que geralmente diz que os jovens de hoje querem tudo fácil, ou que as pessoas não se relacionam mais como antigamente, ou que não tem tanto tempo - podem dizer que isso é uma linha de progresso natural, que tem a ver com nosso tempo e as transformações na nossa sociedade. Não vamos dizer que isso não seja verdade, mas vamos fazer uma analogia com outra modalidade de RPG, um pouco mais antiga: os jogas de miniatura - ou melhor dizendo, a intersecção desses jogos com o RPG. Cronologicamente, poderíamos dizer que os jogos de miniatura precederam o RPG, ou que o RPG foi aos poucos se configurando sem miniaturas.... e que por isso, essa questão de mimetismo (representação da realidade) sairia perdendo para um viés imaginativo, para uma história e um cenário que se formam na mente dos jogadores, mais ou menos como num livro. Mas recentemente houve o retorno multicolorido das miniaturas: levantado pelo heroclicks e cia, as miniaturas do D&D voltaram às lojas, desta vez feitas de plástico, coloridas e disponíveis também em lojas de brinquedo. Ponto para os que dizem que o jogador hoje quer facilidades, quer as coisas prontas e teorias do gênero.

MAS O QUE AS MODALIDADES TRADICIONAIS TEM DE BOM?





"a idéia é de que um jogador pode ficar puto com o mestre e tal por causa de um "mau uso das regras", mas no MMORPG isso não seria possível"


CONCLUSÃO

"tem todo esse "outro" aí que tem que ser respeitado"

Agradeço especialmente ao Tadeu Adrade, que opinou sobre o texto via msn, dando muitas contribuições.




quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Boa Noite, Queridinhas no Apenas um Jogo (26 de março de 2017)

Antes de ir para o local do jogo, conversando sobre o larp Boa Noite Queridinhas
e a programação Apenas um Jogo. Foto: Carlos Augusto.

Depois do Ciclo de Iniciação ao Larp, com o Luiz Prado, da visita de Tiago Junges e o larp Hyperdrive, da Resistência em Ayê com a Confraria das Ideias e do LudoLab: Jogos Narrativos (comigo mesmo) em 2016... Eu queria muito fazer uma programação maior no Sesc Itaquera.

Sérgio Servolo, meu supervisor à época, me encorajou (e desafiou) a programar um larp por mês no Sesc Itaquera. Fixamos uma data - sempre no último domingo do mês - e eu trabalhei em uma curadoria o mais consistente possível. A programação do primeiro semestre foi divulgada, junto com os textos de conceituação, tão logo as instâncias burocráticas do Sesc se encarregaram de garantir que a programação aconteceria. Tinha início o "Apenas um Jogo".

Primeiro larp da programação foi o Boa Noite Queridinhas, de Matthijs Holter. É um "larp de guerra". Um larp simples, rápido de explicar, mas muito esmerado em seu design. Já falei dele muitas vezes - e já o levei, sozinho ou com companheiros, para muitos lugares. Começamos a usá-lo com o NpLarp e o Boi Voador já em 2011. Foi sensação no LabJogos 2013, um dos larps inaugurais do LabLarp em São Paulo, provocou epifanias em Sorocaba... só para citar alguns exemplos. Consideramos um excelente larp para apresentar a linguagem - e por isso mesmo, foi escolhido para ser o primeiro também nessa programação.


A diferença, dessa vez, ficou por conta da montagem. Preparamos uma "sala de estar" com sofás, mesinhas, plantas e almofadas, iluminada por um único abajur. Um clima intimista onde o criador receberia suas criaturas para contar seu verdadeiro destino.

Na verdade, jogamos Boa Noite, Queridinhas duas vezes nesse dia. A primeira vez, mais curta, serviu para os jogadores entenderem e se apropriarem do funcionamento do jogo. Além disso, uma participante "de primeira viagem" que a princípio tinha dito que "só queria observar", acabou tomando coragem para se juntar ao grupo na segunda sessão.

Fotos de Carlos Augusto

A segunda sessão, mais elaborada e longa, acabou sendo um pouco mais densa, com reflexões mais profundas e até mesmo uma entrega maior por parte dos jogadores. Não é incomum - é inclusive um dos motivos pelos quais tantas vezes optamos por esse jogo como "introdução" à prática do larp. Seus quatro parágrafos super enxutos podem ser lidos muito rápido - e "escondem" muitos segredos preciosos. É possível jogar uma sessão de Boa Noite, Queridinhas em apenas alguns minutos para entender o funcionamento do larp - e então pode-se extrair muito dele nas próximas.

Surpreendentemente, apesar de termos realizado esse larp tantas vezes, à exceção do Luiz Prado, nenhum dos jogadores ali presentes já tinha experimentado esse jogo. E - é sempre muito boa essa sensação - uma pessoa estava jogando larp pela primeira vez.

E uma selfie no final ;) pra registrar
os rostinhos de satisfação dos jogadores

Boa Noite, Queridinhas
teve sua encarnação no Apenas um Jogo com um pouco de pompa, algo de mistério, mas com o clima de acolhimento, transparência e abertura para experimentação que já tínhamos vivenciado no LudoLab em 2016. Apesar de ter, nesse contexto, contado com alguma produção e até um roteiro impresso produzido especialmente para a data, é um larp totalmente acessível e ao alcance de QUALQUER CURIOSO. Se você está curioso com este jogo, ou com o larp em geral, não deixe de dar uma lida no roteiro, reunir alguns amigos e experimentar.

Leitura Complementar:


Roteiro do larp Boa Noite Queridinhas, de Matthijs Holter

Ficha Técnica:


Data:  26 de março de 2017
Local: Sesc Itaquera
Organização: Luiz Falcão, Sesc Itaquera
Foto: Carlos Augusto
Duração: 3h em duas sessões + explicação + debrief
Quantidade de Jogadores: 7 pessoas
Investimento: gratuito para o público

sábado, 4 de agosto de 2018

Ao fazer larp, não seja como esses caras

Em 2017, eu fiz uma programação e larps no Sesc Itaquera inspirado pelo desenho "Apenas um Show". Foi o Apenas um Jogo. (Um parque, com carrinhos de golfe circulando e altas aventuras que pra quem olha de fora parecem bobagem, mas que no fundo são um grande aprendizado de inteligência emocional,... enfim).

Mas o próprio desenho apenas um show tem algumas coisas para nos ensinar sobre larp.

1 - se você cobrar pelo seu larp, cuidado pra não virar o benson.

2 - se você pagar para jogar um larp, cuidado para não ser como esses jogadores aí.

3 - procure não ser como o musculoso e o fantasmão.

4 - se você acabar sendo como o musculoso ou o fantasmão... isso não é motivo para ser aprisionado e tomar tomatadas (a menos que você queira isso... né?). Procure um advogado trabalhista.

5 - benson, eu sei que o larp é estressante... mas não grite com o staff. (bom... pra que eu digo isso pro benson?)

6 - aliás, se você for dar uma de benson.... procure não ser o rei...

7 - aliás, se você for dar uma de benson.... evite dar uma de benson.



e por último e não menos importante...

8 - procure não ser como o Pairulito. Definitivamente, procure não ser como o Pairulito.



(quando tiver o episódio inteiro em português eu prometo que posto de novo)

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(originalmente publicado no facebook aqui e aqui, siga os links para ver a discussão)

terça-feira, 8 de maio de 2018

6 larps e uma provocação

publicado originalmente no facebook em 7 de maio de 2018
É muito sangue, suor e lágrimas no larp...
desde 2004.

Foi muito trabalho e muita energia empregados na Confraria das Ideias desde 2006.

Muito suor e muito esforço no Boi Voador e no NpLarp desde 2011.

Muita garra e muita perseverança no Sesc Itaquera desde 2016.

E no meio disso tudo, muitas viagens, encontros, pesquisas, leituras, jogos, experiências, descobertas...

Perdemos as contas de quantas pessoas conheceram o larp pela primeira vez nessa jornada - e de quantas pessoas que já o conheciam vimos com os olhos brilhando (ou revirados, heheh) com o nosso trabalho. Sei que mudamos a vida de algumas pessoas com isso <3

É uma satisfação grande, em algum ponto dessa jornada, pegar um guia de programação "da firma" e achar o trabalho de um parceiro dessa estrada representado dessa forma.

Vai ser na virada cultural, no Sesc 24 de maio. Quem vamos?!

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Par Perfeito

Em fevereiro de 2014, eu quis participar do Concurso Faça Você Mesmo, organizado pela Secular. Pensei em dois jogos a partir das metas.

Gabriel-Kharla, um story game mais ousado sobre disforia de gênero com influências de Vestido de Noiva (montagem teatral do Zimba e do Santa Rosa da peça do Nelson Rodrigues) .

O segundo, mais simples, um larp baseado em um improviso que eu havia feito com minha esposa para jogarmos alguma coisa enquanto esperávamos batatinhas. Par Perfeito. As metas de design se encaixaram como uma luva para esse.

 Compartilhei um pouco do meu processo criativo neste link.

Comecei a escrever ambos os jogos, mas fui me perdendo no tamanho, clareza e organização do texto. Escrever um jogo é um trabalho de relojoeiro, não é só colocar as ideias no papel - tem que ser conciso, claro, sem rodeios. Um bom jogo pode ter um péssimo manual. E um mesmo jogo pode ter muitos bons manuais diferentes. Afinal, uma coisa é o jogo, outra é como você ensina a jogá-lo.

O tempo passou, o prazo para o concurso acabou e os textos permanecem rascunhos em algum HD, esperando por nova investida intelectual e laboral para transformá-los em manuais de jogos propriamente ditos.

Mas este ano, o Julio Matos nos contou que o Giltônio havia criado um desafio, inspirado pela mudança na quantidade de caracteres permitidos para um Twitter. Não uso twitter, mas a ideia era muito legal.

Segue a versão "concisa" de Par Perfeito, para o #AGameIn270 (no twitter | no facebook )

PAR PERFEITO - 1° encontro. 1 quer casar e ter filhos. o outro quer cortar o 1° em pequenos cubos na mesma noite. nenhum dirá suas intenções, mas ambos querem consentimento. começa: qnd sentam à mesa. termina: qnd vão juntos a um lugar +reservado ou se despedem.#AGameIn270


domingo, 24 de dezembro de 2017

Boas Festas

Primeira imagem que editei para o NpLarp, ainda em 2010.


originalmente postado no facebook, no dia 24 de dezembro de 2017

Feliz Natal para quem é de Feliz Natal. Boas festas para quem é de boas festas.

Para quem não é nem de um, nem de outro, um bom dia! (E para quem vai trabalhar, bom trabalho!)

E para quem estiver, nesse final de ano, refletindo sobre a condição humana e, especialmente, sobre a complexidade das relações interpessoais eu recomendo dar uma olhada neste larp - de fim de fim de ano - do Luiz Prado!

2017 está chegando ao fim. E com ele, especialmente para mim, parece o fim de um ciclo maior.... Outros ciclos continuarão, é claro - e esperamos não passar por eles cometendo os mesmos erros. Que sejam ao menos erros novos. Diferentes!

Meus mais sinceros votos de força e superação - dos tempos que vieram e dos tempos que virão.


quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Com Deriva, nos despediremos do Apenas um Jogo

Apenas um Jogo foi um programação intensa de larp no Sesc Itaquera no ano de 2017. Uma vez por mês, sempre no último domingo, a unidade do Sesc situada na Zona Leste de São Paulo recebeu os mais diferentes larps, brasileiros e de outras partes do mundo. Além disso, recebemos também autores para fazer seus próprios jogos - muitas vezes pela primeira vez.

Em dezembro, encerramos nossa programação anual no domingo dia 17 - início das festividades da Saturnália Romana e data significativa para nossa história com o larp - com o Larp Deriva, de Luiz Prado.

Tive a oportunidade de jogá-lo em fevereiro, durante a programação Território Larp no Sesc Ipiranga (onde joguei também o larp Chuva Ácida, duas semanas depois). Deriva é um larp "físico", na tradição de outros jogos do autor como monstros e Último Dia em Antares (este, desenvolvido durante uma residência artística no Sesc Itaquera em 2016), mas não é necessariamente um larp "mudo". Seguindo outra "tradição do autor" (comparemos Café Amargo, Letícia Freire e Andarilho... por exemplo), Deriva experimenta também, de maneira radical, na forma. Não importa quantas pessoas estejam jogando o larp juntas e ocupem o espaço ao mesmo tempo: cada personagem está sempre sozinho, definhando solitário na selva como o protagonista do conto que inspira o larp, À Deriva, de Horácio Quiroga. (O próprio Luiz Prado discorreu recentemente sobre esta escolha de design em um post no facebook).

Estar tragicamente sozinho e ao mesmo tempo dividir espaço com os outros jogadores não é a única característica que chama atenção em Deriva, é claro - mas os demais traços de personalidade desse larp eu deixarei para conhecermos pessoalmente e na pele no próximo dia 17.


DEZ/ Deriva 
dia 17 de dezembro, domingo - 14h00 / Sala de Convenções Grande

Deriva é um larp baseado no conto À Deriva, do escritor uruguaio Horacio Quiroga. Os jogadores vivem uma luta pela sobrevivência na selva, enquanto agonizam sob os efeitos de um veneno letal. Com ênfase no trabalho corporal e no uso da imaginação, Deriva faz parte de um grupo de larps que buscam explorar as potencialidades do corpo em jogo, como "monstros" e "Último dia em Antares". Através da imaginação, os jogadores criam seu entorno e moldam seus corpos, deslocando-se por espaços ficcionais que se cruzam. A procura é pela imersão surgida desses corpos modificados pelas sugestões criativas dos participantes. Deriva é o primeiro jogo de uma série batizada como "Larps de Amor, de Loucura e de Morte" - em referência à coleção de contos de Quiroga.

A participação é gratuita e não é preciso fazer inscrição antecipada, basta comparecer no horário. É recomendado que os participantes venham com trajes confortáveis. Durante o larp, poderá haver trabalho corporal intenso, com movimentos como engatinhar, rastejar e rolar no chão.

link: evento no site do Sesc

link: evento no facebook

Deriva encerra a programação do ano Apenas um Jogo, que trouxe um larp por mês, todo último domingo do mês para o Sesc Itaquera. Excepcionalmente em dezembro, o Apenas um Jogo ocorrerá no dia 17 de dezembro.


Luiz Prado realiza suas pesquisas individualmente e junto do grupo Boi Voador e da ong Confraria das Ideias. Participa do NpLarp - Núcleo de Pesquisa em Live Action Roleplay. É criador e organizador do FERVO - Frente de Experimentação em Representação, Vivência e Ocupação. Reside em São Paulo, SP.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Um larp para entender a Palestina

Em março de 2012, a notícia de que um Ministro Norueguês falou sobre o potencial sócio-interacionista do RPG correu as redes sociais. "Larps podem mudar o mundo, declarou recentemente Heikki Holmås, o novo ministro norueguês do Desenvolvimento Internacional". A entrevista repercutiu anos a fio, sempre como se fosse uma novidade (como é de praxe na internet).

Na entrevista, além de sua trajetória pessoal como jogador, experiências significativas que ele viveu em larps ele fala também de "um projeto norueguês de larp na Palestina, que será realizado ainda este ano, do qual ele não conhecia todos os detalhes". O projeto em questão, entre a norueguesa Fantasiforbundet e O Fórum de Paz e Liberdade da Juventude, resultou no larp Até que a Morte nos Separe, também em 2012, promovendo interação entre as culturas nórdica e palestina.

O intercâmbio que começou naquele ano deu vida a uma sólida comunidade de larp no país, tendo resultado em muitos outros projetos: um grupo local organizado, uma publicação nacional (O Nascimento do Larp no Mundo Árabe) e um grande projeto entre a Finlândia e a Palestina, o larp Estado de Sítio, que ocorreu na Finlândia em 2013, fartamente documentado e com investimento robusto, apenas para citar alguns exemplos.

No larp Estado de Sítio os personagens vivem em uma Finlândia ocupada militarmente, em correspondência á ocupação israelense que acontece na Palestina. Foto:Tuomas Puikkosen
Longe dos ricos países nórdicos, no entanto, a cena do larp Palestino se desenvolve com vigor - mesmo sem tantos recursos. Interessado pela produção naquele país - e as similaridades que poderiam ter com a nossa - o pesquisador Tadeu Rodrigues Iuama entrou em contato com os produtores de lá e selecionou o jogo Então, você acha que consegue dançar? que se passa na Palestina, em 2002, mas que segundo o pesquisador pode ser entendido como um jogo "correspondente" ao seu irmão rico da Finlândia. Mohamad Rabah, por exemplo, é um dos autores de ambos os jogos.

Segundo os autores Riad Mustafa, Ureib Samad, Mohamad Rabah, é um Larp educacional para não-palestinos sobre a situação política interna palestina. Com seu larpscript traduzido pelo Tadeu Rodrigues, Então, você acha que consegue dançar? foi realizado pela primeira vez no Brasil por ele  no Sesc Sorocaba e é o próximo larp, no Sesc Itaquera, da Programação Apenas um Jogo - que traz todo mês um larp diferente, sempre no último domingo do mês.


NOV/ Então, você acha que consegue dançar? 
dia 26 de novembro, domingo - 14h00 / Sala de Convenções 

Os jogadores representarão personagens com diferentes pontos de vista políticos, que divergem sobre qual seria a solução para o fim da ocupação e sobre seus sonhos para o Estado Palestino.

Os eventos do jogo ocorrem em 2002, durante a invasão do exército israelense a Ramallah. Na ocasião, muitas pessoas, presas aleatoriamente, eram colocadas em um campo de detenção provisório na região. Depois de algum tempo, eram soltas ou transferidas para uma prisão permanente.

Por coincidência, um grupo de pessoas. que se conheceu 8 anos antes (1994), quando estudavam na Universidade de Birzeit, são presos durante esse período às 2:00 da manhã. E agora eles estão neste campo de prisioneiros com as mãos amarradas e os olhos cobertos. O jogo vai levar suas memórias de volta ao seus argumentos políticos durante 1993 (O acordo de paz de Oslo), e o que aconteceu com esses argumentos e visões em 2002.

A partir de 16 anos.

link: evento no site do Sesc
link: evento no facebook

Então, você acha que consegue dançar? é o penúltimo larp da programação Apenas um Jogo, que traz um larp por mês, todo último domingo do mês para o Sesc Itaquera.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Ciência da Morte, um mod de "Os Anatomistas de Babel"

Em março de 2015, o game designer Ygor Speranza publicou sem muito alarde um jogo com ares cômicos no grupo Indie RPG no facebook. Com certa inspiração em As Extraordinárias Aventuras do Barão de Munchausen, Os Anatomistas de Babel logo foi parar no larpbrasil.blogspot.com e depois no Cardápio que organizei primeiro para o Sesc Bauru e então para circular em toda a parte.

Em Agosto de 2016, eu levei Os Anatomistas de Babel para FERVO na Funbox Ludolocadora, para jogá-lo pela primeira vez. A pedido do Ygor Speranza, escrevi um relato (ou seria uma análise?) sobre a experiência que pode ser lido no blog do FERVO.

Anatomistas de Babel, de Ygor Speranza, durante o FERVO em São Paulo, na FUNBOX. Foto de Jaime Daniel Rodríguez Cancela

Um dos jogadores, o Guilherme Leandro de Cicco, criador do Boardgame The farm Heist, estava jogando larp pela primeira vez - e as mecânicas de Anatomistas..., somadas a seu repertório de game design acabaram incentivando-o a criar sua própria versão do jogo. Um ~mod~ por assim dizer.

Em Ciência da Morte, os jogadores encarnam investigadores forenses diante dos restos mortais da vítima de um crime hediondo - e devem determinar a causa da morte e debater sobre as condições nas quais o corpo foi encontrado.

Ciência da morte pode ser baixado aqui.