O início do mês de agosto de 2026 foi palco do evento Role - VI Simpósio sobre RPG, Larp e Educação. É a sexta edição do evento considerando os simpósios de RPG e Educação dos anos 2000, e o segundo de sua versão moderna, que teve início em 2024, passou a ser online e bienal e além de receber o nome próprio "Role", ganhou também a adição do "Larp" entre o binômio "RPG & Educação".
Nessa edição, consegui estar um pouco mais próximo do evento do que em edições anteriores. Especialmente, estive no grupo de whatsapp do evento durante toda a realização. Faço parte desse grupo já há alguns meses, desde que alguns participantes do ArtPart Grupo de Estudos me colocaram para dentro.
Não costuma ser um grupo muito movimentado ao longo do ano, mas isso muda durante o evento. Tanto a educação quanto o RPG (e o larp!) são meios bastante diversos no que diz respeito a origem e formação de seus integrantes. Sendo um evento acadêmico, ainda, acho que temos a diversidade de pensamento exponencializada: muita gente que estuda profundamente uma enorme diversidade de assuntos.
Eventualmente, algum participante do debate levantou a possibilidade de fazer um "RPG sobre um tabuleiro em tamanho natural" (ué) e outro integrante do grupo sugeriu que se poderia dar uma olhada na Constelação Familiar, que seria mais ou menos isso. O que seguiu a partir daí foi uma sequência de mensagens muito acaloradas sobre a natureza, o uso ou não-uso, as origens e mais uma série de questões sobre a prática que, se você não conhece, recomendo fortemente que procure conhecer (e apresento alguns caminhos para isso no final desse posto). Algumas pessoas, tentando minimizar o clima bélico que se instaurou, indicaram o psicodrama, o teatro do oprimido.... *E ninguém falou em larp*. A moderação foi chamada várias vezes para intervir - e interveio - mas a medida que mais pessoas liam o começo do debate e respondiam aquelas primeiras mensagens, mais a conversa crescia.
Esperei um pouco a conversa esfriar, respirei fundo e mandei as seguintes mensagens, que reproduzo aqui porque acredito que a linha de raciocínio possa interessar mais pessoas, que não estavam ali naquele contexto. Além do quê, é uma discussão que está bastante madura dentro do contexto larp, mas não está registrada na internet em parte alguma.
[09/08, 10:04] Luiz Falcão:
Pessoal,
Tá parecendo um campo minado esse grupo aqui de vez em quando, né?
Mas vou arriscar deixar uns 2 centavos aqui sobre o assunto.
Vou tentar não avançar nenhum sinal 🙏🙏🙏
O psicodrama é uma parada interessante da gente ter uma compreensão melhor do que é - e a partir daí, dá para tocar o teatro do oprimido e até a constelação familiar sem entrar nos pormenores.
O psicodrama não segue uma linha de psicoterapia porque ele É uma linha de psicoterapia.
A figura que cria o psicodrama é um cara importante pra gente, que é o Jacob Levy Moreno, criador também do Teatro da Espontaneidade e do Sociodrama (outras coisas legais de dar uma pesquisada).
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| Slide de Jacob Levy Moreno, o criador do psicodrama, na minha apresentação "RPG além das Caixas: diversidade e tradições nos jogos de faz de conta", como realizada na 6ª edição do evento PenhaGeek, na Zona Leste de São Paulo. |
É o Moreno que cria a noção de roleplay como usamos nos jogos de RPG, e é inclusive por conta do uso que ele faz do termo que os RPGs são chamados assim.
Dizer que o RPG ou o Vampiro usam psicodrama é um pouco impreciso.
Eles podem usar recursos do psicodrama, mas psicodrama, mesmo, é a prática clínica conforme organizada pelo Moreno.
Existem, inclusive, jogos psicodramáticos. Tanto de RPG quando de larp. Mas a prática clínica psicodrama é isso: uma prática clínica.
O que faz a gente associar o psicodrama, o teatro do oprimido e até a constelação familiar com os RPGs é porque todos eles operam essa noção de roleplay que foi estabelecida a partir do Moreno.
Roleplay como uma coisa diferente de "play a role".
Quem tem curiosidade sobre as origens do RPG, é legal empreender essa pesquisa. Posso indicar leituras, vídeos, etc para quem quiser se aprofundar.
Agora...
Sei que nem todo mundo é familiarizado ao larp, embora muitos conheçam "por cima".
Muito do que a gente aponta como similaridade e potencialidade dessas práticas com o RPG pode ter uma resposta interessante através do larp.
Existe uma corrente amplamente difundida internacionalmente - e da qual eu certamente faço parte - que considera o larp uma linguagem.
Nessa acepção, psicodrama, teatro do oprimido e constelação familiar dão todos (ou pelo menos tem todos elementos de) larp.
Sei que para muitos é uma afirmação polêmica e tudo bem. É uma acepção possível, dentro dessa noção do larp como linguagem.
Então, psicodrama é uma prática clínica.
Teatro do Oprimido é uma prática artística (e o teatro fórum, teatro legislativo, arco-íris do desejo, são desdobramentos dessa prática que se estendem por outras áreas)
E constelação-familiar.... Enfim, é discutível. Certo?
Mas todos utilizam o roleplay num eixo dramático, de representação dos personagens/papéis por meio do próprio corpo...
Portanto, larp.
O RPG faz o roleplay por meio da narração, declaratória, e não da representação física - e pode sim também pegar emprestados recursos dessas outras práticas, desses outros contextos.
Essa é a verdade absoluta? Incontestável?
Não, não.
Mas é uma forma possível de ver as coisas.
Se formos a fundo, *todo o RPG é influenciado pelo psicodrama* 😅
Ainda que indiretamente
Sobre a constelação familiar, para quem se interessou pela polêmica do tema, muito conteúdo foi produzido a respeito nos últimos anos, justamente porque houve uma penetração orquestrada nos sistemas de justiça, saúde e educação aqui no Brasil.
Há muitos podcasts, textos, reportagens, investigando os casos e eu indico alguns:
O episódio do O Assunto da globo é um excelente podcast sobre Constelação Familiar.
O Medo e Delírio traz um áudio resumindo a questão no episódio Dias 272 a 276. No aparte, a partir do minuto 49:39.
E eu gosto muito desse aqui também, da Rádio Escafandro: episódio #77 – A constelação familiar e o pseudodireito. Embora ele possa soar um pouco debochado para quem quer uma visão mais "imparcial".
Espero não ter ultrapassado nenhum limite e ter sido cuidadoso com a abordagem dos temas
E já peço desculpas de antemão caso tenha cometido algum deslize 🙏🙏🙏



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