sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Psicodrama, Teatro do Oprimido, Constelação Familiar... e Larp.

O início do mês de agosto de 2026 foi palco do evento Role - VI Simpósio sobre RPG, Larp e Educação. É a sexta edição do evento considerando os simpósios de RPG e Educação dos anos 2000, e o segundo de sua versão moderna, que teve início em 2024, passou a ser online e bienal e além de receber o nome próprio "Role", ganhou também a adição do "Larp" entre o binômio "RPG & Educação".

Nessa edição, consegui estar um pouco mais próximo do evento do que em edições anteriores. Especialmente, estive no grupo de whatsapp do evento durante toda a realização. Faço parte desse grupo já há alguns meses, desde que alguns participantes do ArtPart Grupo de Estudos me colocaram para dentro.

Não costuma ser um grupo muito movimentado ao longo do ano, mas isso muda durante o evento. Tanto a educação quanto o RPG (e o larp!) são meios bastante diversos no que diz respeito a origem e formação de seus integrantes. Sendo um evento acadêmico, ainda, acho que temos a diversidade de pensamento exponencializada: muita gente que estuda profundamente uma enorme diversidade de assuntos.

Eventualmente, algum participante do debate levantou a possibilidade de fazer um "RPG sobre um tabuleiro em tamanho natural" (ué) e outro integrante do grupo sugeriu que se poderia dar uma olhada na Constelação Familiar, que seria mais ou menos isso. O que seguiu a partir daí foi uma sequência de mensagens muito acaloradas sobre a natureza, o uso ou não-uso, as origens e mais uma série de questões sobre a prática que, se você não conhece, recomendo fortemente que procure conhecer (e apresento alguns caminhos para isso no final desse posto). Algumas pessoas, tentando minimizar o clima bélico que se instaurou, indicaram o psicodrama, o teatro do oprimido.... *E ninguém falou em larp*. A moderação foi chamada várias vezes para intervir - e interveio - mas a medida que mais pessoas liam o começo do debate e respondiam aquelas primeiras mensagens, mais a conversa crescia.

Esperei um pouco a conversa esfriar, respirei fundo e mandei as seguintes mensagens, que reproduzo aqui porque acredito que a linha de raciocínio possa interessar mais pessoas, que não estavam ali naquele contexto. Além do quê, é uma discussão que está bastante madura dentro do contexto larp, mas não está registrada na internet em parte alguma.

[09/08, 10:04] Luiz Falcão: 

Pessoal,

Tá parecendo um campo minado esse grupo aqui de vez em quando, né?

Mas vou arriscar deixar uns 2 centavos aqui sobre o assunto.

Vou tentar não avançar nenhum sinal 🙏🙏🙏

O psicodrama é uma parada interessante da gente ter uma compreensão melhor do que é - e a partir daí, dá para tocar o teatro do oprimido e até a constelação familiar sem entrar nos pormenores.

O psicodrama não segue uma linha de psicoterapia porque ele É uma linha de psicoterapia.

A figura que cria o psicodrama é um cara importante pra gente, que é o Jacob Levy Moreno, criador também do Teatro da Espontaneidade e do Sociodrama (outras coisas legais de dar uma pesquisada).

Slide de Jacob Levy Moreno, o criador do psicodrama, na minha apresentação "RPG além das Caixas: diversidade e tradições nos jogos de faz de conta", como realizada na 6ª edição do evento PenhaGeek, na Zona Leste de São Paulo.

É o Moreno que cria a noção de roleplay como usamos nos jogos de RPG, e é inclusive por conta do uso que ele faz do termo que os RPGs são chamados assim.

Primeira edição do D&D descrevia o jogo como "Regras para Campanhas de Jogos de Guerra Medievais Fantásticos, jogáveis com Lápis e Papel e Miniaturas". O termo "Fantasy Role-playing Games" só apareceria nas versões de 1981 do jogo, inclusive reivindicando-se como "original", uma vez que RPG era como seus concorrentes passaram a se denominar antes dele.
Existe uma história relativamente bem documentada de como esse termo sai dali, da pesquisa do Moreno, e passa a ser associado ao D&D que, no início, não era chamado de RPG.

Dizer que o RPG ou o Vampiro usam psicodrama é um pouco impreciso.

Eles podem usar recursos do psicodrama, mas psicodrama, mesmo, é a prática clínica conforme organizada pelo Moreno.

Existem, inclusive, jogos psicodramáticos. Tanto de RPG quando de larp. Mas a prática clínica psicodrama é isso: uma prática clínica.

O que faz a gente associar o psicodrama, o teatro do oprimido e até a constelação familiar com os RPGs é porque todos eles operam essa noção de roleplay que foi estabelecida a partir do Moreno.

Roleplay como uma coisa diferente de "play a role".

Quem tem curiosidade sobre as origens do RPG, é legal empreender essa pesquisa. Posso indicar leituras, vídeos, etc para quem quiser se aprofundar.

Agora...

Sei que nem todo mundo é familiarizado ao larp, embora muitos conheçam "por cima".

Muito do que a gente aponta como similaridade e potencialidade dessas práticas com o RPG pode ter uma resposta interessante através do larp.

Existe uma corrente amplamente difundida internacionalmente - e da qual eu certamente faço parte - que considera o larp uma linguagem.

Nessa acepção, psicodrama, teatro do oprimido e constelação familiar dão todos (ou pelo menos tem todos elementos de) larp.

Sei que para muitos é uma afirmação polêmica e tudo bem. É uma acepção possível, dentro dessa noção do larp como linguagem.

Então, psicodrama é uma prática clínica.

Teatro do Oprimido é uma prática artística (e o teatro fórum, teatro legislativo, arco-íris do desejo, são desdobramentos dessa prática que se estendem por outras áreas)

E constelação-familiar.... Enfim, é discutível. Certo?

Mas todos utilizam o roleplay num eixo dramático, de representação dos personagens/papéis por meio do próprio corpo...

Portanto, larp.

O RPG faz o roleplay por meio da narração, declaratória, e não da representação física - e pode sim também pegar emprestados recursos dessas outras práticas, desses outros contextos.

Essa é a verdade absoluta? Incontestável?

Não, não.

Mas é uma forma possível de ver as coisas.

Se formos a fundo, *todo o RPG é influenciado pelo psicodrama* 😅

Ainda que indiretamente

Sobre a constelação familiar, para quem se interessou pela polêmica do tema, muito conteúdo foi produzido a respeito nos últimos anos, justamente porque houve uma penetração orquestrada nos sistemas de justiça, saúde e educação aqui no Brasil.

Há muitos podcasts, textos, reportagens, investigando os casos e eu indico alguns:

O episódio do O Assunto da globo é um excelente podcast sobre Constelação Familiar.

O Medo e Delírio traz um áudio resumindo a questão no episódio Dias 272 a 276. No aparte, a partir do minuto 49:39.

E eu gosto muito desse aqui também, da Rádio Escafandro: episódio #77 – A constelação familiar e o pseudodireito. Embora ele possa soar um pouco debochado para quem quer uma visão mais "imparcial".

Espero não ter ultrapassado nenhum limite e ter sido cuidadoso com a abordagem dos temas

E já peço desculpas de antemão caso tenha cometido algum deslize 🙏🙏🙏

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Quem matou Gorette Kauffmann? [Playtest]

Quem matou Gorette Kauffmann?
Um larp de assassinato corporativo

A empresária Gorette Kauffmann, multimilionária brasileira conhecida no país inteiro, foi encontrada morta em seu flat, num hotel 5 estrelas.

Após grande comoção nacional, todos os principais suspeitos acabam procurando a delegada responsável para confessar o crime.

Jogadores:

1 - Gorette Kauffmann (ou Odilon Kauffmann) / Delegada (ou Delegado)
1+n - Cada um dos suspeitos de cometer o crime.

A primeira parte do jogo é jogada em duplas, com os demais jogadores assistindo fora-da-cena. Nessa etapa, cada dupla representará duas cenas.

1a - depoimento

A pessoa suspeita procura o Delegado para confessar o crime. Ele a recebe em sua sala e faz as perguntas iniciais, de identificação do Suspeito, antes de colher o depoimento propriamente dito. Especialmente quem é esse suspeito e qual sua relação com a vítima.

Nesse ponto, os jogadores criarão o personagem do Suspeito (e, ao longo dos depoimentos, também o do delegado/delegada).

2a - flashback

O delegado vai assumir o papel da pessoa assassinada. Agora elu é Gorette/Odilon Kauffmann. A interação deve começar desde o momento em que o convidado se anuncia até o momento derradeiro do assassinato.

Regra opcional: os jogadores que estão fora-da-cena podem fazer questionamentos, assumindo temporariamente a função do delegado colhendo o depoimento. Essas intervenção não devem ser abusivas, elas tem a finalidade de ajudar a contar a história do assassinato da maneira mais convincente possível. Os jogadores podem ainda, em momentos mais complicados, atuarem como diretores, pedindo para refazer a cena com alguns detalhes diferentes se acharem necessário.

Regra alternativa: após a representação dramática do assassinato, pessoa suspeita e Delegado voltam a se sentar um diante do outro e o delegado pode fazer perguntas sobre a continuidade do delito, assim como a pessoa suspeita pode dar continuidade a sua versão e à representação de sua personagem.

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Após todos os jogadores terem representado suas versões, fora-do-personagem, eles votam em qual das versões acham que deve ser a verdadeira. O Delegado/Vítima vota por último e seu voto vale 2 pontos.

Em caso de empate entre duas ou mais versões, as investigações não foram capazes de comprovar nenhuma das confissões.

Em caso de haver um vencedor, uma última cena será representada.

3a - coletiva de imprensa

O Delegado fará uma rápida coletiva de imprensa onde os demais jogadores farão o papel de repórteres. Apenas a pessoa jogadora cuja personagem foi formalmente acusada fica de fora dessa cena.

Regra alternativa - entrevista: 20 anos depois, o Delegado é entrevistado para um documentário de crimes reais sobre o caso. Além dele, outras personagens podem ser entrevistadas (a pessoa incriminada e um ou mais dos outros suspeitos que confessaram). Os demais jogadores serão parte da equipe do documentário que fará as perguntas.

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

O Larp Nórdico não é bem assim - Podcast Tomos Revelados


Faz um tempinho que saiu esse podcast que conta com uma contribuição minha.

Os rapazes também citam um texto do Luiz Prado publicado na RedeRPG, RPG e Larp: qual é a diferença?.

Eu acho que o ponto de partida dos caras é muito fraco (um texto ruim publicado na gringa). Mas os caras mandam bem na investigação a partir do texto.

Fica a recomendação!


Podcast: https://open.spotify.com/episode/21nUuyBP0ihZCtKYC9aF9N?si=O5qORpniRQiiKPF3c0MmEQ

Texto original: https://retiredadventurer.blogspot.com/2021/04/six-cultures-of-play.html


O texto original acerta ao partir do princípio que o RPG é constituído a partir de muitas e diferentes culturas de jogo - mas é só isso. O tentar delimitar quais seriam essas culturas (ou as principais delas), logo escorrega no simplismo e no preconceito.

Toda generalização vai errar, não tem jeito. Mas até por isso, quando generalizamos precisamos ser cuidadosos. Não parece ter sido o que houve na composição do texto original, Six Cultures of Play.

Todo mérito do podcast vai todo para o pessoal da Moira Games,  que além de traduzir textos estrangeiros para o Português (o que por si só já é muito bacana), no podcast Tomos Revelados lê, comenta e chama convidados para comentar o texto de acordo com os temas que o texto levanta. Excepcional!

Além de mim, o Felipe Tuller e o Mink convidaram o Newton Rocha, o Rafael Balbi, a Ana do praquemgosta e o Samuel Hernandez para falar sobre alguns pontos do texto.

Para quem preferir ler o texto por si mesmo, Seis culturas de jogo está disponível no site do Tomos Revalos.

Abaixo, a transcrição dos áudios que eu mandei para o Felipe a respeito do trecho que le me pediu para comentar.

Fala Felipe, aqui é o Luiz Falcão falando. E sobre esse texto que você mandou, esse trecho sobre o Nordic Larp é bem esquisito na verdade. Ele não descreve muito bem o que é o Nordic Larp ele faz parecer que o autor leu uma coisa ou outra na internet e completou o resto com a imaginação dele. É um texto bem desdenhoso e preconceituoso na verdade, cheio de clichês e caricaturas. O termo Nordic Larp é, e sempre vai ser, um termo em disputa, mas ele definitivamente não se refere a jogos de mesa, é sobre Larp mesmo.

Eu vou evitar comentar ponto a ponto do que tá esquisito nesse trecho porque acho que o foco é falar sobre a cultura do Larp no Brasil, e eu acho que gente consegue dividir - como talvez fosse possível fazer também no Nordic Larp - não numa única cultura, mas em algumas culturas que constituem essa cultura maior.

No caso do Brasil, a gente tem, ao ver, no meu entendimento, três culturas bem definidas, mas que dialogam entre si, se contaminam umas às outras, influenciam umas às outras. A primeira delas é muito ligada aos jogos de RPG, que são os larps de Vampiro e dos outros títulos da White Wolf, né? É o larp de Vampiro que inaugura o Larp no Brasil. O Vampiro: A Máscara é muito popular, inclusive no formato live action, que é como ele ficou muito conhecido e popular aqui no Brasil a partir dos anos 90. Inclusive esse ano a gente tá fazendo 30 anos de Larp brasileiro. E o marco inicial aí dessa contagem é o primeiro larp de Vampiro organizado oficialmente em um evento em 1994.

Também dá para destacar o Boffer Larp, que são os larps que usam espadas de espuma. Esse termo boffer tem a ver com as espadas de espuma, é um termo norte-americano para isso. Hoje o pessoal fala muito em swordplay, mas o swordplay são as práticas com a espada de espuma, e o Boffer Larp é o larp propriamente dito, usando dessa tecnologia Se o larp de vampiro começa em 94, o larp de espada de espuma a gente rastreia mais ou menos até meados do ano 2000, né?

Então a gente acredita que os primeiros grupos [de boffer larp] apareceram nesse meio tempo, mas um grupo de relevo, de destaque, é o Graal, que começa aqui em São Paulo fazendo eventos numa chácara, num sítio. Aos finais de semana. E aí são histórias de fantasia, de fantasia medieval. Um pouco inspiradas pelo D&D e acho que muito carregadas pelo clima que tinha nessa época com os filmes do Senhor dos Anéis, que estavam para estrear ou estavam estreando nos cinemas e que acabaram congregando aí o pessoal que curtia medievalismo e fantasia medieval. 

...

 Mesmo esses larps de fantasia medieval aqui no Brasil, eles já tem um pouco um input dessa tradição que começa lá no Vampiro à Máscara, né? Mas aí a gente fala da terceira tradição ou da terceira cultura que eu vejo com bastante identidade própria aqui no Brasil, que talvez tenha origem a partir dos jogos de Vampiro: A Máscara, mas um pouco influenciado pelos eventos de RPG.

A Confraria das Ideias, que é uma grande representante dessa terceira tradição, começa fazendo um jogo de Vampiro Máscara no final de um evento de RPG, e aí vira uma tradição fazer larps ao final de eventos de RPG. Mas eles abandonam o Vampiro: A Máscara a partir do segundo larp que eles fazem e vão explorar outros temas.

Eles também abandonam sistemas de RPG. Não foi o único grupo a fazer isso, a gente tem outros grupos que a gente poderia mencionar o grupo Enigma, por exemplo, em Curitiba, Até certo ponto o grupo CLAN, do Rio de Janeiro, que fez bastante larp de Vampiro e dos jogos da White Wolf, mas fazia outros temas também.

Enfim aí a gente poderia seguir acumulando exemplos a respeito disso, né? Que aí eu vou dizer que é um larp, larp mesmo, assim, sem um adjetivo né? Porque a primeira tradição que é o Vampire Larp, e a segunda que é o Boffer Larp, eu entendo que eles têm esse qualificador que os agrupa. Agora, o resto todo, eu acho que ele acaba fazendo parte dessa tradição, que é de entender o larp de maneira autônoma e flexível dentro de temáticas, dentro de propostas de jogabilidade...

E aí, lá para 2011, 2012, 2013, o NpLarp, que é o grupo que eu faço parte, acaba fazendo uma extensa pesquisa a respeito do Larp, além das fronteiras brasileiras, dentro das fronteiras brasileiras também, mas além das fronteiras brasileiras [inclusive] e a gente acaba tomando contato com o Larp internacional e o Nordic Larp. Inclusive é nessa época que o livro que se chama Nordic Larp sai, em 2010, e acaba ganhando um grande relevo na comunidade internacional.

São quatro países, eles fazem um evento entre si, os eventos são em inglês então isso fez com que chegasse mais longe a produção cultural e intelectual deles. E aí acaba tendo uma grande influência do Larp Nórdico, mas não só no Larp Nórdico [mas também] no Larp brasileiro. E aí de lá para cá, esse eixo vem se desenvolvendo bastante, essa tradição do Larp enquanto uma linguagem autônoma.

Acho que mais ou menos é isso, essa tradição... A tradição, claro, do Vampiro: A Máscara ainda tem bastante ligação com jogos de RPG. Quando saiu a quinta edição do Vampiro teve um certo revival, embora nunca tenham parado os lives de Vampiro: A Máscara, né? Mas teve grupos aí voltando ou se rearticulando um pouco em função do hype da quinta edição. O Larp Medieval teve algumas experiências bem interessantes pelo Brasil. De maneira geral também, ele nunca deixou de existir mas arrefeceu bastante, embora você tenha grupos bastante longevos, como Batalha Cênica Salvador, o Graal MG, que hoje é o Crônicas ou o Graal RJ, que hoje é o Santuário. Mas talvez teve uma redução na prática desse tipo de larp.

Mas que existir, existir... sempre existiu. A gente vê que essas tradições não desaparecem, elas sofrem influências umas das outras, mas elas continuam seguindo os seus percursos. 

...

Rapaz, pensando aqui agora, depois de gravar esse áudio eu acho que a gente já pode falar numa quarta tradição já, que são esses lápis estilo faça você mesmo, que costumam ter um roteiro um manual, etc. Para os jogadores lerem e jogarem por si mesmos, às vezes com o organizador, às vezes com todos os jogadores tendo consciência do jogo como um todo.

Essa tradição é muito amalgamada com a outra, a terceira, mas acho que constitui uma cultura ou escola própria, por assim dizer. Para quem tiver curiosidade, tem um site que é o larpbrasil.blogspot.com, que reúne uma grande quantidade desses roteiros, muitos deles produzidos aqui no Brasil, já. Mas também alguns deles gringos de outros países.

Pode ser bacana para conhecer também.

 

Os áudios foram transcritos com ajuda da web.descript.com

sábado, 6 de abril de 2024

Em 2014, 20 anos do larp brasileiro

Faz dez anos que o Wagner Luiz Schmit apresentou meu artigo New Tastes in Brazilian Larp: from dark coke to caipirinha with Nordic ice no Knutpunkt, conferência internacional de Larps na Suécia.

Eu participei por videoconferência no finalzinho porque me atrapalhei com a programação e o fuso horário 🤷


Naquela época, eu não tinha me dado conta, o larp brasileiro estava prestes a fazer 20 anos. Acho que foi o primeiro esforço de uma historiografia do larp até aquele momento, e não sei se houve alguma outra desde então.

E esse ano, o larp brasileiro está prestes a fazer 30 anos!

De lá para cá, é claro, muita água rolou! Será que eu ainda consigo arriscar algumas linhas?

Quem quiser ler o artigo, vou deixar links relacionados abaixo

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O artigo New Tastes in Brazilian Larp: from dark coke to caipirinha with Nordic ice foi publicado no Knutpunkt Book de 2014, chamado The Cutting Edge of Nordic Larp (algo como 'O fio da navalha do Larp Nórdico' ou mais literalmente, 'a borda cortante...'). O tema do evento naquele ano era Sharpening the Cutting Edge e excepcionalmente foram publicados 2 livros - para os Nórdicos também foi um momento de revisar a trajetória, com o livro The Foundation Stone of Nordic Larp, uma coletânea de textos fundamentais para a tradição do KP. 

A apresentação também está disponível integralmente na internet.

Pouco tempo depois, uma tradução desse artigo foi publicada em português, na Revista Mais dados, intitulada Novos Sabores do Larp Brasileiro - Da coca-cola à caipirinha com gelo nórdico, hoje disponível no Academia.edu. Tragicamente, essa edição colocou todas as fotos agrupadas no final.

domingo, 3 de março de 2024

Is just to love and be loved in return

Gatite partiu na quinta-feira dia 22 de fevereiro, por volta de 11hs.


Ela entrou na nossa vida durante a pandemia de COVID 19, em 2020. 

Foi em Julho. A Íris já estava há alguns meses sem ir para a escola (e ficaria muitos mais) e eu estava com o pé recém quebrado. Para complicar, o proprietário pediu a casa em que morávamos de aluguel. Natascha estava aqui para nos ajudar a lidar com as novidades.

Foi nesse contexto intenso que a Gatite veio para as nossas vidas. Ela já me visitava de tempos em tempos para pedir carinho. Mas naquele julho ela se sentiu mais à vontade para entrar dentro de casa.

A Natascha facilitou um pouquinho e a Gatite acabou ficando. Aliás, escolhendo ficar. Não era um filhote, era um gatão grande e bem cuidado que, aparentemente, trocou a casa em que vivia pela nossa. As portas e janelas estavam sempre abertas, mas desde que chegou ela nunca passou um dia fora.

Eu nunca conheci uma pessoa felina tão amável e carinhosa como a Gatite.

Depois de um tempo, fizemos a mudança como o previsto - de um sobrado com 3 quintais e árvore no jardim para um pequeno apartamento. Me preocupei se a Gatite ia se adaptar. Se adaptou.

Vivemos três anos juntos ali no apartamento. Compramos até uma coleirinha para passear.

Em novembro de 2023, a Gatite, que sempre foi muito grande, perdeu muito peso. Uma noite, vomitou a madrugada toda e ninguém em casa conseguiu dormir. No dia seguinte, levamos na Dra Natália, veterinária.

Dali uns dias estava internada. Tomando remédios. Fazendo ultrassom. Comendo comida especial.

Foram 4 meses em que os cuidados se intensificaram a cada semana - e as oscilações dos gastos deixavam muito claro que não ia sobrar dinheiro algum.

Quando foi preciso fazer a transfusão em fevereiro, já não havia dinheiro algum. Mas não pudemos negar esse cuidado.

Entrei para o tal mercado de futuros (no futuro eu pago) e no início de fevereiro, a Gatite parecia estar ressuscitada!

Ela entrou na internação duas vezes definhando, e nas duas vezes saiu de lá com a energia de um gatinho jovem.

Foi nessa saída da segunda internação, depois da transfusão, quando o gasto semanal com remédios dobrou, que o Godoy perguntou se podia ajudar fazendo uma Vakinha.

Além do dinheiro, as rotinas de cuidado eram muito extenuantes. Num dia, soro subcutâneo. No outro, injeção. Na enfermaria lá de casa mesmo. Todos os dias, um amplo coquetel de remédios que, no fim, Gatite aprendeu a tomar e eu aprendi a administrar. E ainda duas vezes por semana íamos ao veterinário, muitas vezes colher exames.

Mas mesmo com todos esses cuidados. Mesmo gastando o que tínhamos e não tínhamos de nosso próprio dinheiro, próprio tempo e própria saúde, em duas semanas a Gatite voltou a piorar muito rapidamente.

Voltamos a realizar exames determinantes - para entendermos se ainda havia o que fazer para ajudá-la ao mesmo tempo em que, pelo andar das coisas, já nos entendíamos nos despedindo dela.

Os gatos, ao que nos consta, não costumam demonstrar muito claramente o sofrimento. Não são de reclamar, por assim dizer. Talvez por isso, a gente não via a Gatite piorando. Ela simplesmente piorava, de um dia para o outro. E piorava muito.

Buscamos estar do lado dela em todos esses momentos, como ela também buscou estar do nosso.

Gatite gostava de toque, de carinho, de colo. Não é que ela "deixava" pegar no colo. Ela vinha até nós para que a gente a pegasse no colo.

Dormia com a gente, abraçava (você já viu um gatinho abraçando?), lambia nosso rosto, gostava que a gente segurasse as patinhas dela (como quem dá as mãos para alguém) e às vezes ela própria inventava jeitos de segurar a nossa mão.

Por fim, os exames revelaram que não havia mais possibilidade de melhora. A única sobrevida possível seria baseada num ciclo de transfusão, aumento do sofrimento e nova transfusão. Não fazia sentido.

Assim, nos despedimos  da Gatite no dia 22/02. (Para falar a verdade, ainda estamos nos despedindo de certa forma).


Com muita, muita, muita tristeza, mas com igual gratidão por todo o tempo que passamos juntos.

Ela nos escolheu. E nós a escolhemos de volta como resposta.

Gatite entrou para a nossa família em um momento bastante sensível. Foi uma companhia muito importante para a Íris especialmente durante a Pandemia (a Íris tinha 9 anos quando a pandemia começou, ia passar muito, muito tempo sem a presença de outras crianças e muito muito tempo convivendo apenas comigo). Mas igualmente foi muito importante para mim e para a Natascha.

E para todo mundo que nos visitava quando as visitas voltaram às casas das pessoas com o fim da quarentena. Não teve ninguém que a Gatite não tenha recebido com carinho.

A todos esses amigos (seja os que a conheceram pessoalmente ou apenas virtualmente) deixamos nossa gratidão.

Depois de me despedir da Gatite, um trecho da uma canção veio a minha mente e eu acho que ela ilustra poderosamente nosso encontro. Em especial os versos a seguir, que já deixei em outros lugares.

The greatest thing you'll ever learn
Is just to love and be loved in return

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A Gatite partiu, mas a Vakinha segue funcional por mais alguns dias. Quem puder ainda assim contribuir vai estar nos ajudando a fechar as contas do mês (ainda temos alguns meses do tratamento comparecendo à fatura do cartão de crédito).
Olá, meu nome é Gatite e tenho aproximadamente 8 anos. Sou muito carinhosa, adoro aparecer em lives e reuniões online. Mas fiquei doente, precisei ser internada duas vezes e até transfusão de sangue eu fiz. Descobri que sou uma paciente renal, e que também sofro de uma forte anemia. (...)

https://www.vakinha.com.br/vaquinha/ajudem-a-gatite

terça-feira, 31 de outubro de 2023

Catábase no CCJ

Na madrugada do dia 21 para o dia 22 de outubro rolou o playtest / abertura de processo do larp Catábase - a história de uma liderança religiosa que conduz uma pequena comunidade com o auxílio de entidades que ele visita durante a noite.


Neste larp, um único jogador faz o mesmo personagem o tempo todo. Os demais se revezam em dois papéis, muito diferentes um do outro.

Eu não me lembro de alguma vez já ter feito uma experiência parecida com essa: a partir de um esboço da estrutura de um larp, reunir participantes para juntos levantarmos cenário, iluminação e combinarmos juntos detalhes da experiência enquanto ela transcorre.

Mais de dez anos atrás, quando participei da fundação do Boi Voador, o objetivo era o oposto: entregar o mais bem acabada possível uma experiência imersiva e participativa a um grupo de jogadores.

A experiência que rolou na madrugada do 13° Encontro de RPG do CCJ - Centro Cultural da Juventude foi, para mim, muitíssimo rica. Tivemos ao todo 13 jogadores e encerramos as atividades apenas às 6h da manhã. Sinal que o jogo rendeu.

Coletei feedbacks muito bacanas (que devo dividir com o público em breve) e pretendo registrar em texto como foi a experiência.

E estou animado para fazer mais vezes. 🙂

Agradeço à Confraria das Ideias pelo convite ❤ e a todas as pessoas que participaram da experiência.
Muito obrigado.


#larp #larpbrasil #catábase #katabasis