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sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Quem matou Gorette Kauffmann? [Playtest]

Quem matou Gorette Kauffmann?
Um larp de assassinato corporativo

A empresária Gorette Kauffmann, multimilionária brasileira conhecida no país inteiro, foi encontrada morta em seu flat, num hotel 5 estrelas.

Após grande comoção nacional, todos os principais suspeitos acabam procurando a delegada responsável para confessar o crime.

Jogadores:

1 - Gorette Kauffmann (ou Odilon Kauffmann) / Delegada (ou Delegado)
1+n - Cada um dos suspeitos de cometer o crime.

A primeira parte do jogo é jogada em duplas, com os demais jogadores assistindo fora-da-cena. Nessa etapa, cada dupla representará duas cenas.

1a - depoimento

A pessoa suspeita procura o Delegado para confessar o crime. Ele a recebe em sua sala e faz as perguntas iniciais, de identificação do Suspeito, antes de colher o depoimento propriamente dito. Especialmente quem é esse suspeito e qual sua relação com a vítima.

Nesse ponto, os jogadores criarão o personagem do Suspeito (e, ao longo dos depoimentos, também o do delegado/delegada).

2a - flashback

O delegado vai assumir o papel da pessoa assassinada. Agora elu é Gorette/Odilon Kauffmann. A interação deve começar desde o momento em que o convidado se anuncia até o momento derradeiro do assassinato.

Regra opcional: os jogadores que estão fora-da-cena podem fazer questionamentos, assumindo temporariamente a função do delegado colhendo o depoimento. Essas intervenção não devem ser abusivas, elas tem a finalidade de ajudar a contar a história do assassinato da maneira mais convincente possível. Os jogadores podem ainda, em momentos mais complicados, atuarem como diretores, pedindo para refazer a cena com alguns detalhes diferentes se acharem necessário.

Regra alternativa: após a representação dramática do assassinato, pessoa suspeita e Delegado voltam a se sentar um diante do outro e o delegado pode fazer perguntas sobre a continuidade do delito, assim como a pessoa suspeita pode dar continuidade a sua versão e à representação de sua personagem.

--
Após todos os jogadores terem representado suas versões, fora-do-personagem, eles votam em qual das versões acham que deve ser a verdadeira. O Delegado/Vítima vota por último e seu voto vale 2 pontos.

Em caso de empate entre duas ou mais versões, as investigações não foram capazes de comprovar nenhuma das confissões.

Em caso de haver um vencedor, uma última cena será representada.

3a - coletiva de imprensa

O Delegado fará uma rápida coletiva de imprensa onde os demais jogadores farão o papel de repórteres. Apenas a pessoa jogadora cuja personagem foi formalmente acusada fica de fora dessa cena.

Regra alternativa - entrevista: 20 anos depois, o Delegado é entrevistado para um documentário de crimes reais sobre o caso. Além dele, outras personagens podem ser entrevistadas (a pessoa incriminada e um ou mais dos outros suspeitos que confessaram). Os demais jogadores serão parte da equipe do documentário que fará as perguntas.

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

O Larp Nórdico não é bem assim - Podcast Tomos Revelados


Faz um tempinho que saiu esse podcast que conta com uma contribuição minha.

Os rapazes também citam um texto do Luiz Prado publicado na RedeRPG, RPG e Larp: qual é a diferença?.

Eu acho que o ponto de partida dos caras é muito fraco (um texto ruim publicado na gringa). Mas os caras mandam bem na investigação a partir do texto.

Fica a recomendação!


Podcast: https://open.spotify.com/episode/21nUuyBP0ihZCtKYC9aF9N?si=O5qORpniRQiiKPF3c0MmEQ

Texto original: https://retiredadventurer.blogspot.com/2021/04/six-cultures-of-play.html


O texto original acerta ao partir do princípio que o RPG é constituído a partir de muitas e diferentes culturas de jogo - mas é só isso. O tentar delimitar quais seriam essas culturas (ou as principais delas), logo escorrega no simplismo e no preconceito.

Toda generalização vai errar, não tem jeito. Mas até por isso, quando generalizamos precisamos ser cuidadosos. Não parece ter sido o que houve na composição do texto original, Six Cultures of Play.

Todo mérito do podcast vai todo para o pessoal da Moira Games,  que além de traduzir textos estrangeiros para o Português (o que por si só já é muito bacana), no podcast Tomos Revelados lê, comenta e chama convidados para comentar o texto de acordo com os temas que o texto levanta. Excepcional!

Além de mim, o Felipe Tuller e o Mink convidaram o Newton Rocha, o Rafael Balbi, a Ana do praquemgosta e o Samuel Hernandez para falar sobre alguns pontos do texto.

Para quem preferir ler o texto por si mesmo, Seis culturas de jogo está disponível no site do Tomos Revalos.

Abaixo, a transcrição dos áudios que eu mandei para o Felipe a respeito do trecho que le me pediu para comentar.

Fala Felipe, aqui é o Luiz Falcão falando. E sobre esse texto que você mandou, esse trecho sobre o Nordic Larp é bem esquisito na verdade. Ele não descreve muito bem o que é o Nordic Larp ele faz parecer que o autor leu uma coisa ou outra na internet e completou o resto com a imaginação dele. É um texto bem desdenhoso e preconceituoso na verdade, cheio de clichês e caricaturas. O termo Nordic Larp é, e sempre vai ser, um termo em disputa, mas ele definitivamente não se refere a jogos de mesa, é sobre Larp mesmo.

Eu vou evitar comentar ponto a ponto do que tá esquisito nesse trecho porque acho que o foco é falar sobre a cultura do Larp no Brasil, e eu acho que gente consegue dividir - como talvez fosse possível fazer também no Nordic Larp - não numa única cultura, mas em algumas culturas que constituem essa cultura maior.

No caso do Brasil, a gente tem, ao ver, no meu entendimento, três culturas bem definidas, mas que dialogam entre si, se contaminam umas às outras, influenciam umas às outras. A primeira delas é muito ligada aos jogos de RPG, que são os larps de Vampiro e dos outros títulos da White Wolf, né? É o larp de Vampiro que inaugura o Larp no Brasil. O Vampiro: A Máscara é muito popular, inclusive no formato live action, que é como ele ficou muito conhecido e popular aqui no Brasil a partir dos anos 90. Inclusive esse ano a gente tá fazendo 30 anos de Larp brasileiro. E o marco inicial aí dessa contagem é o primeiro larp de Vampiro organizado oficialmente em um evento em 1994.

Também dá para destacar o Boffer Larp, que são os larps que usam espadas de espuma. Esse termo boffer tem a ver com as espadas de espuma, é um termo norte-americano para isso. Hoje o pessoal fala muito em swordplay, mas o swordplay são as práticas com a espada de espuma, e o Boffer Larp é o larp propriamente dito, usando dessa tecnologia Se o larp de vampiro começa em 94, o larp de espada de espuma a gente rastreia mais ou menos até meados do ano 2000, né?

Então a gente acredita que os primeiros grupos [de boffer larp] apareceram nesse meio tempo, mas um grupo de relevo, de destaque, é o Graal, que começa aqui em São Paulo fazendo eventos numa chácara, num sítio. Aos finais de semana. E aí são histórias de fantasia, de fantasia medieval. Um pouco inspiradas pelo D&D e acho que muito carregadas pelo clima que tinha nessa época com os filmes do Senhor dos Anéis, que estavam para estrear ou estavam estreando nos cinemas e que acabaram congregando aí o pessoal que curtia medievalismo e fantasia medieval. 

...

 Mesmo esses larps de fantasia medieval aqui no Brasil, eles já tem um pouco um input dessa tradição que começa lá no Vampiro à Máscara, né? Mas aí a gente fala da terceira tradição ou da terceira cultura que eu vejo com bastante identidade própria aqui no Brasil, que talvez tenha origem a partir dos jogos de Vampiro: A Máscara, mas um pouco influenciado pelos eventos de RPG.

A Confraria das Ideias, que é uma grande representante dessa terceira tradição, começa fazendo um jogo de Vampiro Máscara no final de um evento de RPG, e aí vira uma tradição fazer larps ao final de eventos de RPG. Mas eles abandonam o Vampiro: A Máscara a partir do segundo larp que eles fazem e vão explorar outros temas.

Eles também abandonam sistemas de RPG. Não foi o único grupo a fazer isso, a gente tem outros grupos que a gente poderia mencionar o grupo Enigma, por exemplo, em Curitiba, Até certo ponto o grupo CLAN, do Rio de Janeiro, que fez bastante larp de Vampiro e dos jogos da White Wolf, mas fazia outros temas também.

Enfim aí a gente poderia seguir acumulando exemplos a respeito disso, né? Que aí eu vou dizer que é um larp, larp mesmo, assim, sem um adjetivo né? Porque a primeira tradição que é o Vampire Larp, e a segunda que é o Boffer Larp, eu entendo que eles têm esse qualificador que os agrupa. Agora, o resto todo, eu acho que ele acaba fazendo parte dessa tradição, que é de entender o larp de maneira autônoma e flexível dentro de temáticas, dentro de propostas de jogabilidade...

E aí, lá para 2011, 2012, 2013, o NpLarp, que é o grupo que eu faço parte, acaba fazendo uma extensa pesquisa a respeito do Larp, além das fronteiras brasileiras, dentro das fronteiras brasileiras também, mas além das fronteiras brasileiras [inclusive] e a gente acaba tomando contato com o Larp internacional e o Nordic Larp. Inclusive é nessa época que o livro que se chama Nordic Larp sai, em 2010, e acaba ganhando um grande relevo na comunidade internacional.

São quatro países, eles fazem um evento entre si, os eventos são em inglês então isso fez com que chegasse mais longe a produção cultural e intelectual deles. E aí acaba tendo uma grande influência do Larp Nórdico, mas não só no Larp Nórdico [mas também] no Larp brasileiro. E aí de lá para cá, esse eixo vem se desenvolvendo bastante, essa tradição do Larp enquanto uma linguagem autônoma.

Acho que mais ou menos é isso, essa tradição... A tradição, claro, do Vampiro: A Máscara ainda tem bastante ligação com jogos de RPG. Quando saiu a quinta edição do Vampiro teve um certo revival, embora nunca tenham parado os lives de Vampiro: A Máscara, né? Mas teve grupos aí voltando ou se rearticulando um pouco em função do hype da quinta edição. O Larp Medieval teve algumas experiências bem interessantes pelo Brasil. De maneira geral também, ele nunca deixou de existir mas arrefeceu bastante, embora você tenha grupos bastante longevos, como Batalha Cênica Salvador, o Graal MG, que hoje é o Crônicas ou o Graal RJ, que hoje é o Santuário. Mas talvez teve uma redução na prática desse tipo de larp.

Mas que existir, existir... sempre existiu. A gente vê que essas tradições não desaparecem, elas sofrem influências umas das outras, mas elas continuam seguindo os seus percursos. 

...

Rapaz, pensando aqui agora, depois de gravar esse áudio eu acho que a gente já pode falar numa quarta tradição já, que são esses lápis estilo faça você mesmo, que costumam ter um roteiro um manual, etc. Para os jogadores lerem e jogarem por si mesmos, às vezes com o organizador, às vezes com todos os jogadores tendo consciência do jogo como um todo.

Essa tradição é muito amalgamada com a outra, a terceira, mas acho que constitui uma cultura ou escola própria, por assim dizer. Para quem tiver curiosidade, tem um site que é o larpbrasil.blogspot.com, que reúne uma grande quantidade desses roteiros, muitos deles produzidos aqui no Brasil, já. Mas também alguns deles gringos de outros países.

Pode ser bacana para conhecer também.

 

Os áudios foram transcritos com ajuda da web.descript.com

sábado, 6 de abril de 2024

Em 2014, 20 anos do larp brasileiro

Faz dez anos que o Wagner Luiz Schmit apresentou meu artigo New Tastes in Brazilian Larp: from dark coke to caipirinha with Nordic ice no Knutpunkt, conferência internacional de Larps na Suécia.

Eu participei por videoconferência no finalzinho porque me atrapalhei com a programação e o fuso horário 🤷


Naquela época, eu não tinha me dado conta, o larp brasileiro estava prestes a fazer 20 anos. Acho que foi o primeiro esforço de uma historiografia do larp até aquele momento, e não sei se houve alguma outra desde então.

E esse ano, o larp brasileiro está prestes a fazer 30 anos!

De lá para cá, é claro, muita água rolou! Será que eu ainda consigo arriscar algumas linhas?

Quem quiser ler o artigo, vou deixar links relacionados abaixo

--

O artigo New Tastes in Brazilian Larp: from dark coke to caipirinha with Nordic ice foi publicado no Knutpunkt Book de 2014, chamado The Cutting Edge of Nordic Larp (algo como 'O fio da navalha do Larp Nórdico' ou mais literalmente, 'a borda cortante...'). O tema do evento naquele ano era Sharpening the Cutting Edge e excepcionalmente foram publicados 2 livros - para os Nórdicos também foi um momento de revisar a trajetória, com o livro The Foundation Stone of Nordic Larp, uma coletânea de textos fundamentais para a tradição do KP. 

A apresentação também está disponível integralmente na internet.

Pouco tempo depois, uma tradução desse artigo foi publicada em português, na Revista Mais dados, intitulada Novos Sabores do Larp Brasileiro - Da coca-cola à caipirinha com gelo nórdico, hoje disponível no Academia.edu. Tragicamente, essa edição colocou todas as fotos agrupadas no final.

terça-feira, 31 de outubro de 2023

Catábase no CCJ

Na madrugada do dia 21 para o dia 22 de outubro rolou o playtest / abertura de processo do larp Catábase - a história de uma liderança religiosa que conduz uma pequena comunidade com o auxílio de entidades que ele visita durante a noite.


Neste larp, um único jogador faz o mesmo personagem o tempo todo. Os demais se revezam em dois papéis, muito diferentes um do outro.

Eu não me lembro de alguma vez já ter feito uma experiência parecida com essa: a partir de um esboço da estrutura de um larp, reunir participantes para juntos levantarmos cenário, iluminação e combinarmos juntos detalhes da experiência enquanto ela transcorre.

Mais de dez anos atrás, quando participei da fundação do Boi Voador, o objetivo era o oposto: entregar o mais bem acabada possível uma experiência imersiva e participativa a um grupo de jogadores.

A experiência que rolou na madrugada do 13° Encontro de RPG do CCJ - Centro Cultural da Juventude foi, para mim, muitíssimo rica. Tivemos ao todo 13 jogadores e encerramos as atividades apenas às 6h da manhã. Sinal que o jogo rendeu.

Coletei feedbacks muito bacanas (que devo dividir com o público em breve) e pretendo registrar em texto como foi a experiência.

E estou animado para fazer mais vezes. 🙂

Agradeço à Confraria das Ideias pelo convite ❤ e a todas as pessoas que participaram da experiência.
Muito obrigado.


#larp #larpbrasil #catábase #katabasis

sábado, 14 de outubro de 2023

Catábase, playtest / abertura de processo no 13° RPG no CCJ

21 ~ 22/out
23H30 ~ 4H30 LARP

CATÁBASE, com Luiz Falcão

Em uma pequena comunidade, uma nova liderança religiosa experimenta uma rápida ascensão. Ela traz prosperidade e opera verdadeiros milagres. Mas tudo tem um preço e ele será cobrado.Catábase (Katabasis) é um larp em processo de criação, ainda inacabado, que será colocado para jogo na madrugada do 13° RPG no CCJ. Junto com o proponente, os jogadores farão escolhas de design e experimentarão variações em tempo real, numa experiência de design aberto e participação profunda.

Catábase é um larp de experiência assimétrica. Nele, um dos jogadores representará o mesmo personagem do início ao fim: a liderança religiosa. Os demais se alternarão em 2 papéis: os fiéis dessa religião emergente e os espíritos (ou demônios) que conferem os milagres à comunidade, mas que exigirão coisas em troca. Cenário, personagens e ambiente de jogo serão criados coletivamente.
___

A convite da Confraria das Ideias estarei no Centro Cultural da Juventude entre os dias 21 e 22 de outubro realizando o playtest do larp Catábase (Katabasis) - um jogo cujo design não está 100% fechado e vamos ter a oportunidade de experimentar soluções de design juntos, jogando.

Faça sua pré-inscrição no link https://forms.gle/zUYcLPcKtMmwBzZHA

Entre no grupo de whatsapp no link https://chat.whatsapp.com/L5v4mT0jLh89OcCeBj68P4


QUANDO?
Na madrugada do dia 21 para o dia 22 de outubro
Início 23h30
Término até às 4h30

ONDE?

Exibir mapa ampliado
Centro Cultural da Juventude – CCJ
Av. Deputado Emílio Carlos, 3641.
Vila Nova Cachoeirinha. Zona Norte. São Paulo/SP.
(ao lado do terminal Cachoeirinha).

NO EVENTO
Catábase faz parte da programação do evento 13° Encontro de RPG do CCJ - Confira toda a Programação




PS: imagens usadas na postagem foram retiradas do clipe da música I Love You, do artista WoodKid (Yoann Lemoine). Direção do próprio artista com cinematografia de Arnaud Potier. O modelo das fotos é o russo Matvey Lykov.

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

'Queridos Ouvintes, uma Última Ligação' no Penha Geek

Queridos Ouvintes, Uma Última Ligação. Um larp durante o fim do mundo.
Durante o Penha Geek
No Centro Cultural da Penha
Um programa de rádio no fim do mundo, uma experiência medidativa onde ouvir é tão importante quanto agir.
larp Queridos Ouvintes

Eu e o Chris Martins estaremos juntos nesse sábado no Centro Cultural da Penha, durante o Penha Geek realizando o larp Queridos Ouvintes, uma Última Ligação

Este é um jogo sobre um programa de rádio no fim do mundo. É inspirado por grandes momentos do rádio, quando uma crise permitiu que as emissoras transcendessem as restrições da mídia e ajudassem sua audiência em um nível pessoal.

À medida que o jogo avança, o apresentador abandona gradualmente o artifício da transmissão, até que tudo se desfaça e restem apenas duas pessoas conversando enquanto o mundo escuta.

Este jogo é projetado para ser uma experiência meditativa onde ouvir é tão importante quanto agir.

No original Long Time Listeners, Last Time Callers é um larp do designer Jeff Dieterle criado para o Golden Cobra durante a quarentena.

No sábado fará parte da programação especial Depois do fim do mundo do Penha Geek 2023.

sábado, 16 de setembro
às 15h e às 17h

no Centro Cultural Penha
Largo do Rosário, 20
Sala 02

Basta aparecer no local alguns minutinhos antes

domingo, 16 de abril de 2023

10 anos do Livro Roxo

originalmente publicado no facebook em 15 de fevereiro de 2023

10 anos.

Hoje a publicação do 'guia de larp', o Livro Roxo, completa 10 anos.

Não havia muita coisa para ler sobre larp, em português, naquela época. Aliás, nem havíamos consolidado chamar o que fazemos de larp ainda (menos ainda com letras minúsculas). 

O guia pretendia trazer uma consolidação do nosso primeiro ano de pesquisa no NpLarp (financiado pelo Programa VAI). Queríamos que ele:

  •  Trouxesse uma definição justa do que é larp, mas sem repetir os preconceitos do senso comum;
  • Apresentasse a prática para além do que já era amplamente conhecido e para além da associação com os RPGs;
  • Apresentasse portas de entrada no mundo do larp, seja através de grupos em atividade, seja através de roteiros disponíveis para "fazer você mesmo" (o que era bem mais raro naquela época).
  • Encorajasse as pessoas a fazerem elas mesmas;
  • Fizesse uma tour pelo mundo, apresentando caminhos para curiosos, pesquisadores e produtores conhecerem referências para além daquelas que já manejávamos na rarefeita cena local;
  • Fosse simpático, de leitura agradável.

A roda viva veio, como sempre vem, e sucessivamente foi impedindo novas verões do material. Algumas informações que estavam ali caducaram. Certas partes não envelheceram tão bem. Muita coisa relevante que foi surgindo depois do guia simplesmente não tem qualquer pista ali... E quanto mais tempo passa, mais difícil fica atualizá-lo.

Ainda assim, o "livro roxo" segue sendo uma relevante porta de entrada e um dos materiais mais citados e reconhecidos por aí - seja em conversas inesperadas, seja em citações acadêmicas!

Mas vamos supor que eu fosse fazer uma nova versão desse livro...? 

O que precisaria mudar em relação a essa versão?

O livro 'LIVE! Live Action Roleplaying, um guia prático para o larp' é gratuito e está disponível em PDF no site do NpLarp. 

--

Pouco tempo atrás, o NpLarp e o Boi Voador também alcançaram essa meta dos 10 anos - e, por um motivo ou por outro, acabei não conseguindo fazer nada a respeito disso, nem mesmo uma postagem como esta. Fica aqui então também a minha carinhosa menção a esses marcos.

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Como encontrei o horror na Terra dos Mortos

Nalgum momento tardio dessa pandemia, já com duas doses de vacina no braço, a amiga virtual já de longa data Kyrie Flame (Graal RJ) me adicionou num grupo de WhatsApp chamado amavelmente de Larp Brasil. Logo quando entrei, alguns membros estavam compartilhando histórias marcantes que vivenciaram em larps (entre eles, Effe, Daniel Prado Cosenza, Marina Cavoli e outras pessoas já queridíssimas).

Resolvi compartilhar também e reproduzo meu relato abaixo:

As fotos deste post são do Bruno Fischer.

Tem uma foto pra ilustrar meu momento que quero compartilhar com vocês.

Eu já narrei esse momento em mais de uma ocasião (algumas delas em vídeo, gravadas e distribuídas por aí), mas nunca tive oportunidade de ilustrar.

Essa guria da foto (cujo nome eu não sei e talvez nunca tenha sabido) é parte da história  e eu sou esse camarada barbado aí à esquerda da foto.

Foi no inicinho de 2013, em Araraquara. Eu fui acompanhar a Confraria das Ideias para a primeira realização do larp RedHope: Terra dos Mortos (que no mesmo ano eu tive o prazer de produzir em outra escala e já passo um link pra vcs verem, rs).

Eu não estava familiarizado com o enredo, as mecânicas, os personagens... nada. Então eu acabei jogando...

A história de passava em um universo ficcional que eu tinha ajudado a criar muitos anos antes.

Na história, a vida na Terra tinha sido consumida por uma pandemia (sério) que transformava as pessoas em monstros (que depois viraram só zumbis). A Atmosfera ficou impregnada por esse vírus fatal e quem tinha grana deu tchaus e se mudou para estações espaciais na órbita da terra. (e além). 

Em Terra dos Mortos, um grupo de mercenários vinha para Terra para lançar na atmosfera uma cura experimental... mas a missão sofria uma sabotagem e a nave caía.

Meu personagem era o terceiro imediato.... Mas era um golpista. Ele nunca tinha participado de nenhuma missão em solo e nunca tinha sido responsável por uma espaçonave.... Ele fraudou o currículo para entrar como terceiro imediato porque achava que ia ser zica demais ter que assumir o comando. Imaginem... o capitão e o primeiro imediato iam ter que se retirar... isso não ia acontecer.

Mas aconteceu, né? 🤷‍♂️

Fiquei responsável pela missão, pela tripulação e por concertar todos os sistemas da nave... mas não fazia a menor ideia do que fazer.

Aí essa guria ficava enlouquecida entrando e saindo da nave, querendo fazer mil coisas e sempre vindo se reportar a mim. Enquanto isso, os técnicos da nave ficavam me alugando para fazer reparos nos sistemas da nave que eu nunca tinha nem visto porque eu era, basicamente, um impostor. 

Num determinado momento, ela veio desesperada - gente, desesperada - falando que todos iam morrer e que estávamos perdidos.

Eu minimizei e disse que não ia acontecer nada, que ela ia ficar bem, que os médicos iam tratar os feridos e que se não conseguíssemos decolar, íamos chamar o resgate. Ninguém iria morrer.

Ela saiu da sala e eu fiquei ali com um técnico tentando reparar um quadro de energia (um puzzle fdp que o pessoal da Confraria armou pra gente)

Alguns minutos passam e... na sala onde estávamos havia uma janela que permitia ver o lado de fora da nave.

A menina me aparece coberta se sangue, infectada. Completamente de surpresa.

Eu gelei.

Não foi meu personagem que gelou, não. Fui eu.

Eu me senti responsável pela morte daquela guria e o horror tomou conta de mim daquele momento em diante.

Ela estava certa. Todos íamos morrer. Eu estava no comando e não tinha ideia do que estava fazendo. Era tudo culpa minha e todos íamos morrer.

Dito e feito, né?

Todos morremos.

No final, ainda teve um "brinde".

Meu personagem saiu da nave armado até os dentes e foi consumido por uma horda de zumbis. 

Os jogadores, zumbificados, pularam em mim e eu tentei resistir inutilmente. 

O detalhe: o lado de fora da nave era visível para o público do Sesc (onde o Larp foi realizado). 

Minha filha de DOIS ANOS (na época) estava lá e me viu sendo devorado. Ela ficou em pânico!!!! 😱

esse guri era o técnico que estava comigo na sala....

O reconhecimento facial do facebook diz que aquela guria chama Raquel Franco...

E não achei foto dela convertida em zumbi :O Mas achei essa foto abaixo, bruxona demais.


Esse relato poderia facilmente compor a série #umlarppordia, não poderia?

Vale acrescentar que, nas fotos, dá pra ver a faísca nos olhos da Raquel. Na janela, coberta de sangue, esses olhos estavam opacos. É isso.

quarta-feira, 31 de março de 2021

O dia da celebração (v 0.1.1)

esta postagem ainda é um rascunho¹



Criei um larp
Coisa simples
Chama 'o dia da celebração'

É um Larp de festa: jantar, festinha de aniversário, celebração da firma...

Ainda preciso acertar um contexto.

Durante toda a celebração, todos os personagens tem que apoiar uns aos outros e celebrar mutuamente suas conquistas, qualidades, personalidades e cada colocação que for feita.

Qualquer ideia que seja oferecida ao grupo deve ser acolhida, elevada, continuada, aumentada pelos pares. Ainda que nada se faça a respeito no momento, afinal, hoje não o dia de fazer. Hoje é o dia de celebrar.

pedir a palavra

A qualquer momento. Qualquer momento mesmo. Qualquer jogador pode bater com uma colher em sua taça para pedir atenção.

Mas quando o jogador faz isso, é o jogador quem faz isso, e não seu personagem.

Os convíveres todos vão silenciando e, sob silêncio total, o jogador que pediu atenção falará livremente

Nesse discurso, esse jogador poderá falar sobre os poréns que seu personagem veria sobre o que está sendo celebrado, incentivado, partilhado por todos

Pode falar o que seu personagem realmente estaria pensando

É o momento de colocar para fora as interdições, as contradições, as antipatias e advertências

Nenhum outro jogador deve interrompê-lo

Por extensão, o recuso de pedir a palavra pode ser usado para que o jogador comunique aos demais jogadores alguma coisa que ele sinta necessidade de comunicar.

Outro jogador não pode pedir a palavra na sequência.

Antes de fazer isso, o clima de burburinho, confraternização e celebração deve ser reinstaurado no ambiente.

condições

Como o jogo emula uma reunião social, as condições de início e término do jogo estão diegeticamente definidas.

Recomenda-se que os jogadores combinem antecipadamente a duração do jogo (e eventualmente, dependendo do contexto da Narrativa, um anfitrião para a reunião social) e encerrem a celebração obedecendo aos ritos que seus personagens seguiriam

MAS, que tenham uma estratégia para se encontrarem novamente, sem seus personagens, após o término da representação.
Esses são os ritos do jogo

Para além dos ritos,
Poderia-se incluir um cardápio de situações

situações (e influências)

Situações específicas podem funcionar como catalisadores da experiência.

Uma das inspirações para esse jogo é o Larp de final de ano "Festa da Firma". O contexto de uma celebração no ambiente corporativo suscitaria determinados temas para a experiência, diferentes daqueles que seriam levantados em uma formatura de faculdade, uma reunião de turma 20 anos após formados (como no Larp Encontro de ex-alunos), um chá de bebê ou casamento, o aniversário da matriarca de uma família aristocrática em decadência (semelhante ao Larp "A Vida Elegante"), reunião de um partido político (como no Larp Panaceia).

Outra inspiração é o Larp Novas Vozes na Arte, que traz as taças e os solilóquios/monólogos

Novas vozes na arte, inclusive, é um Larp inserido dentro da tradição nórdica. Um contexto onde o recurso do solilóquio/monólogo é chamado de metatécnica e entendido como um recurso disponível para a comunidade de criadores e jogadores de Larp.

Há muitos larps na tradição nórdica que usam a técnica de solilóquio/monólogo, mas eu não consigo me lembrar de nenhum, no Brasil, que faça isso com esse nível de centralidade para a experiência

Novas Vozes na Arte, até onde eu sei, continua inédito no Brasil (e eu continuo tendo planos para realizá-lo, sozinho ou junto a outros conspiradores, em especial ao Luiz Prado no contexto do grupo Boi Voador)

Outro lado que serviu de fonte de inspiração para esse jogo e que pode inspirar uma sessão de 'o dia da celebração' é 13 à mesa, primeiro Larp do Dogma 99, que apesar de ter nome de livro da Ágata Christie é ele próprio inspirado num filme do manifesto Dogma 95 chamado Festa de Família - que também pode servir como inspiração para 'o dia da celebração'

Por aqui, o Larp Calendário, especificamente em sua realização para o Fervo 2017, é certamente uma fortíssima inspiração para o dia da celebração. Interessados podem ler sobre essa experiência por mais de uma perspectiva, já que relatos sobre esse Larp, naquela ocasião, foram escritos por mais de um jogador.

Também brasileiro, o Larp Álcool, apesar de formalmente muito diferente de o dia da celebração, certamente está no horizonte dessa elaboração poética. Fica nesse parágrafo registrada a minha indicação para conhecê-lo

Mas certamente, uma forte inspiração são os larps Lady and Otto, também nunca jogado no Brasil, mas apresentado no contexto brasileiro pelo Wagner Luiz Schmit, em sua palestra promovida pelo NpLarp em 2013...

E uma sessão específica de Um Seixo, organizada no contexto do LabLarp em São Paulo, em 2013.

Soma-se à influência de Lady and Otto as palestras sobre Comunicação Não-Violenta e Comunicação Apreciativa de Pedro Consorte.

Ironicamente, o dia da celebração nasceu em um dia de celebração, mesmo, quando Leandro Godoy apresentou seu artigo para o livro do Knutepunkt numa conferência online. E apesar de jogo ter germe de tensão, e a celebração que o disparou não ter tido.

Além das referências que sou capaz de expressar, um leitor atento ao cenário poderá ver ali outras relações não nomeadas mais ou menos implícitas.

Som, ruido e silêncio, vamos conversar lá fora e outras proposições que circulam na internet e em grupos de prática de Larp certamente devem conter parte dos componentes genéticos que resultam em o dia da celebração. E eu arriscaria nomear alguns outros, ainda mais distantes quando examinados superficialmente.

Mas as listas dos jogos que já existem que compõe o código genético desse lado já está grande.

Mas para além dos jogos que já foram transformados em texto ou já foram propriamente jogados, muitos jogos que permanecem inéditos certamente compõe a base do que veio a se tornar o dia da celebração. Se esses jogos nunca se materializarem em nenhuma forma, mesmo assim eles já tem alguma existência dentro dessas linhas e terão cada vez que o dia da celebração for jogado.

variação

se for para dar uma puxada na direção do Lady and Otto, dá para usar o recurso de pedir a palavra para o jogador expressar que determinado personagem usou a comunicação de forma violenta, depreciou ou criou constrangimento, ele pode pedir para "voltar a cena"

todo mundo age como se aquilo não tivesse sido dito e quem disse tenta formular de outra maneira, considerando a perspectiva que foi exposta



¹ postar este rascunho aqui faz parte de uma tentativa de fazer circular parte das minhas anotações que tenho acumulado há anos e que dificilmente pegam um pouco de ar puro fora das gavetas

domingo, 30 de junho de 2019

10 anos atrás - Flash Mob e a internet contra a realidade "real"

Por acaso, precisei voltar a abrir uma caixa de email obsoleta, abandonada há muitos anos. Deu curiosidade de ver o que haveria na caixa de rascunhos e eu achei esse texto, escrito há exatos 10 anos.

Ele nunca foi terminado, mas resolvi publicá-lo mesmo assim. (sem alarde)


(e sem edições... nem reforma ortográfica, que aliás passou a valer naquele ano e ainda era novidade)



Flash Mob e a internet contra a realidade "real"


luizpires_mesmo...
Ter, 30/06/2009 00:08

Em tempos de orkut, facebook, twitter e iphone, está na moda falar que as novas tecnologias vão substituir coisas que existiam no passado. Está na moda também dizer que não vão. Nessa onda, muito se diz sobre parte da evasão que vemos no RPG nesses últimos anos ter sido ocasionada pela simplicidade e praticidade de um de seus "subprodutos" mais recentes: os MMORPGs.

Além de estarem na moda e em um ótimo momento de avanços e desenvolvimento - o que por si só já lhes garantiria bastante interesse - os MMORPGs tem algumas vantagens em relação a seus correntes como RPG tradicional de mesa e, o que vamos discutir aqui, os Live-Actions.

Instalar o programa e rodar em sua máquina, em uma internet de conexão veloz (supondo que você tenha esses recursos a mão) ou ir até a Lan House mais próxima e pagar por algumas horas de jogo. Em oposição a isso, montar uma simples sessão de RPG de mesa é quase como organizar um evento: tem que arrumar um local, confirmar a presença dos convidados (muitas vezes conhecer os convidados), garantir que todos se divertirão, descolar algo para comer. Um live então, nem se fala! Num live são ainda mais pessoas envolvidas, cenários, figurinos, um enredo e personagens previamente muito bem amarrados (num live é mais difícil tirar qualquer tipo de personagem ou evento da cartola, bem como locomover-se entre "locações").

Não só mais trabalho é necessário para começar uma partida de rpg de mesa ou live-action. Também parece haver menores, ou mais brandas, possibilidades de frustração. Os outros jogadores de um MMORPG (bem como você mesmo, enquanto jogador) provavelmente não dependem tanto de você, de seu personagem, de seu bom-humor ou disposição para com a narrativa quanto talvez dependam seus colegas de rpg/live. Especialmente se você é o mestre/narrador. Um jogador desmotivado dificilmente contaminará, em um MMORPG, todos os outros e mesmo que contamine alguns, a narrativa continua sem estes jogadores, o universo de jogo continuará existindo e disponível para quem quiser jogar. Dessa forma, em um rpg online, é muito mais simples começar e terminar uma sessão - e pode ser feito individualmente, sem grandes interferências no jogo do outro. O fator deslocamento também é praticamente nulo. Os maiores problemas que um jogador de MMORPG pode enfrentar como frustração são provavelmente conexão de internet muito lenta, queda de energia ou, quando muito, cenários desertos. O que também se contorna facilmente - procura-se outro MMORPG, ou interage-se com os non-player-characters (que no rpg online existem independente de uma amigo seu querer mestrar o jogo, ou em analogia a um live, de ter "figurantes" o bastante).

Há quem diga também que além dessa facilidade de começar/jogar/encerrar, um MMORPG tem também mais conforto que o RPG de mesa ou live. Além disso, que tem mais apelo e maior imersão, por ser um ambiente ricamente criado visualmente. Segundo essa lógica de argumentação, seria mais interessante jogar um RPG online com gráficos caprichadíssimos na Terra Média (cenário dos livros O Senhor dos Anéis) do que participar de um rpg de mesa onde o mestre apenas descreveria os ambientes - ou de um live-action, que dificilmente se aproximaria da riqueza, diversidade e magia que existem nos filmes ou jogos de computador da franquia.

Os defensores dessa teoria - que geralmente diz que os jovens de hoje querem tudo fácil, ou que as pessoas não se relacionam mais como antigamente, ou que não tem tanto tempo - podem dizer que isso é uma linha de progresso natural, que tem a ver com nosso tempo e as transformações na nossa sociedade. Não vamos dizer que isso não seja verdade, mas vamos fazer uma analogia com outra modalidade de RPG, um pouco mais antiga: os jogas de miniatura - ou melhor dizendo, a intersecção desses jogos com o RPG. Cronologicamente, poderíamos dizer que os jogos de miniatura precederam o RPG, ou que o RPG foi aos poucos se configurando sem miniaturas.... e que por isso, essa questão de mimetismo (representação da realidade) sairia perdendo para um viés imaginativo, para uma história e um cenário que se formam na mente dos jogadores, mais ou menos como num livro. Mas recentemente houve o retorno multicolorido das miniaturas: levantado pelo heroclicks e cia, as miniaturas do D&D voltaram às lojas, desta vez feitas de plástico, coloridas e disponíveis também em lojas de brinquedo. Ponto para os que dizem que o jogador hoje quer facilidades, quer as coisas prontas e teorias do gênero.

MAS O QUE AS MODALIDADES TRADICIONAIS TEM DE BOM?





"a idéia é de que um jogador pode ficar puto com o mestre e tal por causa de um "mau uso das regras", mas no MMORPG isso não seria possível"


CONCLUSÃO

"tem todo esse "outro" aí que tem que ser respeitado"

Agradeço especialmente ao Tadeu Adrade, que opinou sobre o texto via msn, dando muitas contribuições.




segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Falamos sobre Larp no Café com Dungeon

Estive esses dias com o Rafael Balbi a falar sobre o larp no podcast Café com Dungeon - do pessoal do Regra da Casa.

Falamos sobre o larp e o RPG como linguagens, próteses dentárias, um barrigudinho representando um personagem fortão, carisma 18, larp pra jogar sozinho e o pessoal semi-nu lambuzado de barro! E muitas outras coisas, é claro!

PS: Eu não sou contra usar shorts de verdade. Era brincadeira 😉 hehehe

Sinopse: Rafael Balbi convida o queridíssimo Luiz Falcão para bater um papo enquanto se hidratam para não morrerem torrados pelo calor escaldante de São Paulo, o papo? LARP! O famigerado Live Action Role Play. Acompanhe o papo que vai dos Live Actions noventistas de Vampiro a Máscara até o Dogma 99, o manifesto criado para desenvolver larps. 

Mais episódios do Café com Dungeon sobre larp

Live-Action de Vampiro - 2#0040
3 de outubro de 2024 - 1h19min
Balbi troca uma ideia com o Boi, da Dungeon Geek, sobre LARPS de Vampiro e sobre o evento Cursed Nights, que ocorrerá dia 02.11.2024 em SP.
https://open.spotify.com/episode/2GCmXvp4uNKj3TgArRjivS

RPG, Larp e educação - 2#0020
16 de maio de 2024 - 1h 34min
Balbi troca ideia com Marcos V. C. Vital e Leonardo A. Ramos, do V Simpósio de RPG, Larp e Educação, sobre RPG como ferramenta de ensino, contexto e estímulo ao aprendizado. Uma interseção entre a academia e o mundo dos jogos.
https://open.spotify.com/episode/381x4zeuNdY23lWBkRJMo9

FLO: Festival de Larp Online - 1#761
abril de 2021 - 1h 9min
Neste episódio, Balbi recebe o Leandro Godoy, vulgo Confrade Godoy, e Rafael Carneiro Vasques, também conhecido como Raca, para falarem do FLO: Festival de Larp Online e explicar um pouco pra gente o que é Larp e quais suas diferenças para RPG.
Se você quiser conhecer os Larps, ou já curte e quer aproveitar a oportunidade para jogar durante a quarentena, inscreva-se no FLO, que começa amanhã, 27 de abril e segue até 1º de maio com atividades dos hosts André Sarturi, Christian Martins, Cauê Martins, Luiz Prado, Tadeu Rodrigues Iuama, Eduardo Caetano, Tiago Junges e dos próprios Raca e Confrade.
https://open.spotify.com/episode/5n1ywHqrFliqcsQ6e2gdU6

Mimesis e Diegesis - 1#700
janeiro de 2021 - 54min 3 s
O RPG é um jogo que comporta uma ligação com muitas mídias e artes diferentes. Vamos investigar aqui a relação de duas noções clássicas, a mimesis e a diegesis, e como se relacionam com as formas narrativas do RPG, com o jeito de descrever, e com nossa atuação no jogo.
Balbi recebe hoje, na Taverna Platônica, Tadeu Rodrigues, acadêmico e pesquisador em comunicação, com trabalho voltado a larps e jogos narrativos, e eles trocam uma idéia sobre esses termos e como se relacionam com o RPG.
Citamos o blog Larp Pensar, do Tadeu, em que ele fala de suas investigações sobre jogos narrativos. Dá uma conferida!
https://open.spotify.com/episode/1e518rmQsdlDOj22wo21y3

Larp - 1#197
dezembro de 2018 - 31min 18 s
Rafael Balbi convida o queridíssimo Luiz Falcão para bater um papo enquanto se hidratam para não morrerem torrados pelo calor escaldante de São Paulo, o papo? LARP! O famigerado Live Action Role Play. Acompanhe o papo que vai dos Live Actions noventistas de Vampiro a Máscara até o Dogma 99, o manifesto criado para desenvolver larps.
https://open.spotify.com/episode/6nT3aFzbhyvWev56F1vjF3




Imagem de capa via Perdidos no Play

Este post entrou no blog no dia 5 de novembro de 2024, mas foi registrado no dia 24 de dezembro de 2018 por mortivos de arquivamento.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Boa Noite, Queridinhas no Apenas um Jogo (26 de março de 2017)

Antes de ir para o local do jogo, conversando sobre o larp Boa Noite Queridinhas
e a programação Apenas um Jogo. Foto: Carlos Augusto.

Depois do Ciclo de Iniciação ao Larp, com o Luiz Prado, da visita de Tiago Junges e o larp Hyperdrive, da Resistência em Ayê com a Confraria das Ideias e do LudoLab: Jogos Narrativos (comigo mesmo) em 2016... Eu queria muito fazer uma programação maior no Sesc Itaquera.

Sérgio Servolo, meu supervisor à época, me encorajou (e desafiou) a programar um larp por mês no Sesc Itaquera. Fixamos uma data - sempre no último domingo do mês - e eu trabalhei em uma curadoria o mais consistente possível. A programação do primeiro semestre foi divulgada, junto com os textos de conceituação, tão logo as instâncias burocráticas do Sesc se encarregaram de garantir que a programação aconteceria. Tinha início o "Apenas um Jogo".

Primeiro larp da programação foi o Boa Noite Queridinhas, de Matthijs Holter. É um "larp de guerra". Um larp simples, rápido de explicar, mas muito esmerado em seu design. Já falei dele muitas vezes - e já o levei, sozinho ou com companheiros, para muitos lugares. Começamos a usá-lo com o NpLarp e o Boi Voador já em 2011. Foi sensação no LabJogos 2013, um dos larps inaugurais do LabLarp em São Paulo, provocou epifanias em Sorocaba... só para citar alguns exemplos. Consideramos um excelente larp para apresentar a linguagem - e por isso mesmo, foi escolhido para ser o primeiro também nessa programação.


A diferença, dessa vez, ficou por conta da montagem. Preparamos uma "sala de estar" com sofás, mesinhas, plantas e almofadas, iluminada por um único abajur. Um clima intimista onde o criador receberia suas criaturas para contar seu verdadeiro destino.

Na verdade, jogamos Boa Noite, Queridinhas duas vezes nesse dia. A primeira vez, mais curta, serviu para os jogadores entenderem e se apropriarem do funcionamento do jogo. Além disso, uma participante "de primeira viagem" que a princípio tinha dito que "só queria observar", acabou tomando coragem para se juntar ao grupo na segunda sessão.

Fotos de Carlos Augusto

A segunda sessão, mais elaborada e longa, acabou sendo um pouco mais densa, com reflexões mais profundas e até mesmo uma entrega maior por parte dos jogadores. Não é incomum - é inclusive um dos motivos pelos quais tantas vezes optamos por esse jogo como "introdução" à prática do larp. Seus quatro parágrafos super enxutos podem ser lidos muito rápido - e "escondem" muitos segredos preciosos. É possível jogar uma sessão de Boa Noite, Queridinhas em apenas alguns minutos para entender o funcionamento do larp - e então pode-se extrair muito dele nas próximas.

Surpreendentemente, apesar de termos realizado esse larp tantas vezes, à exceção do Luiz Prado, nenhum dos jogadores ali presentes já tinha experimentado esse jogo. E - é sempre muito boa essa sensação - uma pessoa estava jogando larp pela primeira vez.

E uma selfie no final ;) pra registrar
os rostinhos de satisfação dos jogadores

Boa Noite, Queridinhas
teve sua encarnação no Apenas um Jogo com um pouco de pompa, algo de mistério, mas com o clima de acolhimento, transparência e abertura para experimentação que já tínhamos vivenciado no LudoLab em 2016. Apesar de ter, nesse contexto, contado com alguma produção e até um roteiro impresso produzido especialmente para a data, é um larp totalmente acessível e ao alcance de QUALQUER CURIOSO. Se você está curioso com este jogo, ou com o larp em geral, não deixe de dar uma lida no roteiro, reunir alguns amigos e experimentar.

Leitura Complementar:


Roteiro do larp Boa Noite Queridinhas, de Matthijs Holter

Ficha Técnica:


Data:  26 de março de 2017
Local: Sesc Itaquera
Organização: Luiz Falcão, Sesc Itaquera
Foto: Carlos Augusto
Duração: 3h em duas sessões + explicação + debrief
Quantidade de Jogadores: 7 pessoas
Investimento: gratuito para o público

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Grupo de pesquisa em Larp do Departamento de Artes Cênicas da USP

aquela fotinha básica pra registrar
a primeira visita do André
Enquanto eu trabalhava com André Sarturi no larp Ilha das Bruxas para o Apenas um Jogo no Sesc Itaquera, ele me contou que havia participado de um evento de artes cênicas na USP e lá conhecido um pessoal da graduação que estava pesquisando larp. Pouco tempo depois, alguém desse grupo deu as caras em um grupo fechado de Facebook que reúne pesquisadores acadêmicos de RPG e Larp - e foi aí que começou meu contato propriamente dito com eles.

Na primeira visita que Sarturi fez ao Sesc Itaquera para conhecermos o espaço e debatermos a trajetória do projeto Apenas um Jogo (e o que vínhamos fazendo na linguagem do Larp em São Paulo nos últimos anos), André me convidou para ir com ele para a USP conhecer os pesquisadores - ele tinha programado uma vista ao processo de pesquisa deles e achou que uma aparição surpresa minha seria benvinda.

E foi. Para todos - talvez especialmente para mim.

Acomodados em um pequeno Teatro do Departamento de Artes Cênicas da USP, Sarturi me apresentou aos estudantes Chris Alexsander Martins, da habilitação em licenciatura, e Vinícius Aguiar e Isa Scoralik, da habilitação em atuação - todos cursando a disciplina de atuação III da graduação em Artes Cênicas.

Pelo que me contaram, historicamente, a habilitação em direção teatral desenvolve uma disciplina de "projeto", onde os estudantes, divididos em grupos, fazem pesquisas de acordo com seus interesses em Teatro Contemporâneo e dividem, ao final do semestre, sua experiência com os pares. Até o ano passado (2017), a habilitação em atuação não tinha nada parecido - e os alunos se mobilizaram para ter, eles também, essa oportunidade. Aquele semestre foi o primeiro a desenvolver a noção de "projeto" com os alunos da habilitação em atuação.

Vinicius e Chris já tinham alguma relação pregressa com o RPG e mesmo com o Larp (ambos participaram de pelo menos um larp da Confraria das Ideias, no Sesc Pompéia). Isa não tinha essa relação, mas somou-se ao grupo motivada pelas questões que a pesquisa levantaria.

"Nós somos alunos da graduação em Atuação e esse semestre a proposta do curso deu uma mudada, ao invés de só termos aulas de atuação, a galera está fazendo pesquisas pessoais sobre atuação. Eu e meu grupo estamos usando o larp como um disparador e isso levantou varias questões como: - Dramaturgia em processo ; - A figura do jogador; Esse segundo é o que mais está nos interessando. O que é esse atuante que é, ao mesmo tempo, espectador e ator dentro de um processo? Isso é muito singular do jogo e tem muitas implicações e semelhanças com o teatro. Porém, o desafio maior está sendo tentar explicar dentro das artes cênicas qual é a nossa pesquisa. O tempo todo estão tentando “puxar” a gente pro teatro, enquanto que a gente bate na tecla que a ideia de público é o contrário da nossa proposta, que só jogando a nossa pesquisa que ela faz sentido. Aí acho que esses embates estão nebulando um pouco o foco, já que ao invés de se focar em avançar a pesquisa a gente passa muiiito tempo explicando o que é um jogo hahahahaha. Acho que essa é um resumo-desabafo do que estamos pesquisando." - Vinicius Aguiar

Na ocasião deste encontro, jogamos Café Amargo, de Luiz Prado. O larp foi sugerido pelo Sarturi (que o conheceu na visita do NpLarp à Unicamp em 2016) e produzido pelos pesquisadores do grupo.

A observação de um larp acontecendo é parte da pesquisa do André - que na época se preparava para defender um doutorado sobre mecanismos de participação, em dança, no espaço público - então ele ficou na plateia do teatro, enquanto nós - eu e os estudantes da USP - jogamos Café Amargo sobre o palco, com iluminação cênica.

Foi um jogo intenso, como são os melhores Cafés Amargos que tomamos. Eu representei um filho discutindo com o pai (Vinicius Aguiar) sobre desligar ou não os aparelhos de minha mãe em estado vegetativo e (um personagem que já representei noutra ocasião, em Sorocaba) um marido se despedindo da esposa (Isa Scoralick) meses após a morte da filha.

Assisti (mesmo que você participe do jogo, Café Amargo prevê que você assista os outros jogadores em alguns momentos - e isso faz parte do jogo) - duas vezes, com conotações muito diferentes - dois amigos de longa data se despedindo definitivamente. Uma por desentendimentos motivados pelo dinheiro (Chris e Vinicius). Outra, mais afetuosa, porque um deles simplesmente decidiu partir (Isa e Chris).

Se eu não for designado para fazer apenas isso, eu sempre esqueço de tirar uma foto oficial.
Essas são as únicas fotos que eu bati no dia.

Descobri que - como já era de se imaginar - aquela não era a primeira vez que o grupo jogava larp. Após uma primeira sessão de Fiasco (RPG de Jason Morningstar, cujo manual foi publicado no Brasil pela Retropunk), o grupo apresentou Ouça no Volume Máximo para toda a turma de atuação que experimentou o jogo se dividindo em grupos, e, sozinhos, o grupo jogou Andarilho - ambos os jogos de Luiz Prado.

Me surpreendeu a maturidade (por falta de um termo melhor) com que os três estudantes estavam refletindo as experiências com o larp. O contato deles com o referencial teórico específico da linguagem ainda era muito tímido - mas a sensibilidade para as questões que envolvem o larp me surpreendeu muito positivamente. Em geral, até chegar nas conclusões que eu vi ali, os jogadores demoram um bocado. Eu demorei. Eles não. Era a terceira ou quarta experiência com larp e lá estavam eles falando com propriedade sobre questões que levaram anos para me inquietar.

Foi, sem dúvida, uma grata e estimulante surpresa.