quinta-feira, 19 de maio de 2016

Sexta-feira treze

Quando demos por encerrado o trabalho criativo em O Jogo do Bicho, em 2014, eu e o Prado rascunhamos nossa próxima criação conjunta para o Boi Voador. Esse larp se passaria em um futuro distópico, apenas alguns anos no futuro, numa versão do nosso país que passou em pouco tempo por profundas reformas conservadoras.

Imaginamos a ascensão meteórica de um candidato popular amplamente suportado pela mídia. (A corrida presidencial daquele ano nem havia começado).

Hoje, dois anos depois daquela primeira conversa, eu temo que nosso país hipotético esteja deixando de ser imaginação. Como sempre, a realidade consegue ser mais surpreendente do que a ficção - e eu olho para as notícias dos jornais com verdadeira inveja criativa do mundo real. Se tivéssemos inventado tudo isso para o nosso larp, diriam que estávamos forçando a barra.

Uma de nossas intenções era fazer um vídeo de contextualização, narrando as transformações sofridas de cá para lá. No estilo desse vídeo famoso da Rede Globo, mas mais curto.


Agora, corremos o risco, se demorarmos mais um pouquinho, de podermos coletar ao bel prazer esse vídeo já pronto - ready made - direto do youtube.

É melhor correr para terminarmos e estrearmos esse larp logo.


sexta-feira, 13 de maio de 2016

Está rolando um novo ciclo de larp em São Paulo - e você não pode perder!

Não se deixe enganar pelo nome. O Ciclo de iniciação de larp não é só para quem está começando.

Realizado pela primeira vez no Sesc Ipiranga, ano passado, o Ciclo é uma curadoria de larps apresentada pelo Luiz Prado, certamente o mais ativo autor brasileiro de larps de nossos tempos.

Cartazes do Ciclo de iniciação ao larp do Sesc Ipiranga, 2015

Compondo uma programação com duração de um mês, com um encontro por semana, o Ciclo apresenta uma seleção de larps que podem ser jogados isoladamente ou em conjunto. Isoladamente, cada larp é uma experiência única, inteira e completa. Em conjunto, eles constituem mais que um comentário sobre a linguagem - eles dão conta quase, pode-se dizer, de um processo de formação.

Mas não se deixe enganar pela aparente complexidade. O Ciclo de iniciação de larp também é para quem está começando.

Larps do Ciclo do Sesc Itaquera


Não. O Sesc Itaquera não será invadido por cavaleiros medievais ou vampiros, nem será transformado em uma nave espacial (não dessa vez!). Os larps selecionados são experiências mais intimistas, pessoais. Todas estão ligadas de alguma maneira ao mundo ou ao imaginário contemporâneo e lidam com temas que estamos habituados em maior ou menor grau. Todos os jogos são de autoria de Luiz Prado, e quem já participou de um larp do autor vai reconhecer seu estilo.

Cartazes já divulgados do Ciclo do Sesc Itaquera
Letícia Freire - 1/mai
O primeiro larp do ciclo foi uma estréia. Letícia Freire foi lançado no mesmo dia no site do Boi Voador e os participantes ganharam uma versão impressa do manual. Este jogo propõe uma experiência multimídia e fragmentada, onde os jogadores se reunirão para representar em duplas uma entrevista para um documentário sobre a personagem título. No final, todas as entrevistas serão unidas criando um pequeno documentário. Os jogadores, no entanto, não combinam nada entre si sobre Letícia Freire - e a unidade é garantida na base do improviso, por um pequeno fio condutor que passa, como um telefone sem fio, de uma entrevista para a outra. O resultado é tão interessante quanto surpreendente!

Sê um viajante numa noite de inverno - 8/mai
Jogo de 2015 ganhou uma versão vespertina em sua edição no Sesc Itaquera. Aqui, cada jogador representa uma versão de si mesmo que, por algum motivo, abandonou tudo e se tornou um viajante. Você deve pensar no que o fez largar tudo, no que deixou para trás e em algo que mudou sua perspectiva diante da vida, depois de começar sua jornada. Então, todos os viajantes se encontram numa noite tarde de inverno ao redor de uma vela para tomar uma bebida quente e conversar sobre suas jornadas até que o fogo se apague. Os participantes também ganharam uma versão impressa do manual.

Três Homens de Terno - 15/mai
É um exercício em torno da linguagem. Em Três Homens de Terno os jogadores se reúnem em torno de um poema algo abstrato e discutem possibilidades de narrativa e estrutura de jogo. Parte está, é claro, sugerido no próprio poema, parte será completada pelo grupo de jogadores. É o próximo larp do Ciclo que acontecerá domingo que vem e eu tenho esperança que aproveitemos o cenário político como estímulo para, pelo menos, algumas de nossas propostas ;)
Também receberemos uma versão impressa do "poema".

Uma tarde no museu - 22/mai
Realizado pela primeira vez no MAC, Uma Tarde no Museu é um convite interessante à reflexão sobre a autoridade e o nosso olhar para a arte e para o outro. Recriando um ambiente de um exposição, os jogadores se dividem em 3 grupos: um será uma obra de arte, outro, um mediador do museu e os demais visitantes. O manual do jogo também ganhará uma versão impressa nessa ocasião.

Morte ao artista - 29/mai
Em 2015, o Ciclo do Sesc Ipiranga terminou com o larp monstros. Era um larp inédito, sobre o qual pouco sabíamos, mas tinha a promessa de ser uma experiênica mais intensa e mesmo mais elaborada que as outras. E foi. O larp ganhou uma segunda edição pelo grupo Boi Voador. Morte ao Artista é o monstros do Itaquera. O larp repreduzirá um pequeno teatro - com alguns jogadores na posição da platéia e outros no palco - e com a ajuda de tomates, sim, tomates, operará a crítica à figura do artista moderno.

Palestras de abertura


Além dos larps, em quatro dessas datas, eu apresentarei, abrindo a programação de larp do dia, às 11h30, uma pequena palestra seguida de bate-papo cujos objetivos são aguçar a percepção, ampliar o interesse e promover a reflexão sobre as práticas que virão em seguida.

1/5 - O que é larp
8/5 - Jogo ou Arte
22/5 - O Larp Político
29/5 - O artista pesquisador em larp

O Sesc Itaquera


Um dos maiores centros culturais da cidade, o Sesc Itaquera fica em maio a uma área de preservação ambiental. Em seus mais de 350.000 m² ele abriga um centro esportivo, lago, parque aquático e muitos outros espaços destinados a todo tipo de programação cultural. Entre estes, encontra-se o ETA - Espaço de Tecnologias e Artes que em 2016 está trazendo diversas programações na linguagem do larp.


 O Sesc Itaquera fica localizado ao lado do Parque do Carmo, na Av. Fernando do Espírito Santo Alves de Mattos, 1000. A melhor opção para chegar ao Sesc é ir até a estação Itaquera do metrô e tomar o ônibus Gleba do Pêssego, que sai do terminal anexo à estação.

Os larps começam às 14h e vão até as 17h.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Três anos atrás eu estava no labJogos

postado originalmente no facebook em 6 de maio de 2016

Três anos atrás eu estava no labJogos.

Foi uma oportunidade incrível de expôr nosso trabalho e conhecer o trabalho de outros tantos articuladores, guerrilheiros, da arte participativa nacional.

Eu pude conhecer pessoas maravilhosas cujos trabalhos e trajetórias eu só conhecia pela internet. Gente como o Eduardo Caetano, Rafael Rocha, John Bogéa, Newton Rocha Nitro... e conhecer tantas outras pessoas igualmente maravilhosas como o Jairo Borges Filho, Chico Lobo Leal, João Pedro Torres e tantos outros.

Alguns eu só fui conhecer melhor no ano seguinte (como o Manuel Gomes).

Foi também oportunidade de reencontrar o Encho Vinícius Chagas, com quem eu tinha trabalhado anos atrás em SP - e que um mês antes eu jamais poderia imaginar encontrá-lo nesse cenário.

E, claro, uma enorme felicidade ao encontrar o Goshai Daian e o Krishna Farnese - que já faziam larp naquela época e que possibilitaram a apartir dali infinitas trocas. Desses encontros surgiram coisas maravilhosas, entre as quais o grupo Larp Brasil aqui no face. Foi quando conheci também, em Belo Horizonte, o paulista Jonny Garcia. Naquela época, ele já tinha organizado um larp - mas foi uma experiência isolada. Lembro que ele devorou o Guia de Larp que eu escrevi para o NpLarp durante uma palestra e depois veio falar comigo, com a cabeça visivelmente "explodindo" :D

Na volta para São Paulo, nos aproximamos bastante e eu tive a oportunidade de trocar muita coisa com ele e estar junto dele na realização de muitas coisas maravilhosas - em especial o LabLarp, um grande marco do larp em São Paulo.

'Cabou que o Jonny se tornou um dos grandes autores brasileiros. Hoje, mora no Canadá, onde eu fico feliz também por tê-lo apresentado a Mo Jave - o que o levou ao grupo de Nordic Larp de Hamilton onde ele continuou jogando e produzindo! Ah, essa chama inestinguível! heheheh. O Jonny voltou para o 3° LabJogos em 2015 trazendo dois jogos inéditos, desenvolvidos no Canadá, mais maduros que os que ele fez por aqui em 2013. Tive a felicidade de jogar ambos :D

Nada disso seria possível, é claro, sem a parceria inesgotável, inabalável e incomparável do Luiz Prado que desconfiava da ida ao primeiro labJogos, mas que está sempre pronto para embarcar nas jornadas do larp comigo, mesmo correndo o risco de ser "mais uma presepada". Não foi. O laboratório "mudou nossa vida e o larp nacional", nas palavras dele mesmo :D

Gratidão infinita, absoluta... e a certeza de que, independente dos altos e baixos da jornada, seguiremos em frente. De cabeça erguida, de punhos cerrados, abrindo caminho e reunindo pessoas. Porque é disso que a nossa arte é feita: pessoas reunidas.

E eu celebro a felicidade de ter um parceiro para todas as horas nessa jornada incrível, alucinante e desgastante que tem sido levar o larp a todas as partes, todos os lugares, todas as pessoas.

Um abraço especial para todos que fizeram e fazem parte dessa história, em especial para o outro dos "Luizes" (como ficamos conhecidos dali em diante):

Desistir nunca, recuar jamais!


quarta-feira, 27 de abril de 2016

Apontamentos sobre a entrevista de Jonny Garcia para a Revista Mais Dados

Olá pessoal,

assisti o vídeo com animação e, depois de algum tempo, comecei a ponderar sobre alguns pontos abordados. Como a entrevista é destinada a uma publicação acadêmica, acredito poder contribuir com alguns detalhes para tornar essa publicação mais assertiva e relevante.

Na condição de amigo do entrevistado, de articulador e espectador de parte dos eventos e episódios narrados, faço algumas sugestões de adaptações e/ou correções de algumas informações, que acredito que possam ser apreciadas pelo entrevistado e o apresentador para melhor aproveitamento do espaço da revista :)

Entendo também que numa entrevista, no calor do improviso e do pensamento rápido, algumas coisas passem sem grande importância e outras recebem uma valoração ou "curadoria" às pressas, e à luz de um pensamento mais detido e pormenorizado, algumas pequenas questões possam ser melhoradas - em acuidade e assertividade - num discurso.

Alegrou-me muito a frase do Jonny, no adendo ao Silence, de que nada se constrói sozinho, que não somos uma ilha, e que é bastante importante referenciar os demais atores que fazem parte desses processos incríveis que trazem saberes e práticas maravilhosas à tona.

1 - Luiz Prado e Luiz Falcão - Confraria das Ideias
O Jonny comenta que tomou contato com a Confraria das Ideias num LabJogos, em 2013. Não é de todo incorreto. Mas apesar de eu e o Luiz Prado fazermos parte também da Confraria das Ideias, estávamos no evento representando o NpLarp, nas palestras, e o Boi Voador, nas práticas.

Essa confusão entre atuadores e grupos é comum, dado que Luiz Falcão e Luiz Prado fazem parte de um monte de grupos e iniciativas, mas é produtivo relembrarmos essas diferenciações. (A mesma confusão acontece no livro de edularps da Narrativa da Imaginação, para a qual eu ainda estou devendo o apontamento).
sugestões:o texto poderia ser adaptado para "tomei contato com os larps da Confraria das Ideias e do Boi Voador a partir das palestras de e conversas com Luiz Prado e Luiz Falcão, do NpLarp, que também fazem parte dos referidos grupos"
ou mesmo uma nota de rodapé explicando essa relação. Eu posso ajudar a compô-la, se for o caso.

2 - "Eu e Luiz Falcão fundamos o LabLarp"
Eu sempre acrescento o Luiz Prado nessa "fundação" também. Primeiro porque ele estava junto no "ato de fundação", rs, documentado com fotografia e tudo mais :D Também porque a participação dele foi bastante importante na definição do formato do LabLarp - antes (quando ele era só um rascunho num caderno) e depois do Jonny efetivamente protagonizá-lo.

Depois, porque apesar de ele estar um pouco ausente nos 2 primeiros encontros, ele esteve bastante presente e participativo nos demais. Levando alguns jogos próprios e sendo também bastante responsável pela articulação do público.

Um dos objetivos do LabLarp era, certamente e entre muitos outros, o de formar um produtor, autor e articulador de larp - que era o Jonny. Então eu e o Prado não buscávamos protagonismo no labLarp, queríamos dar espaço ao Jonny. Nós já tínhamos nossos espaços de criação, experimentação e realização de larp. Estávamos no projeto nessa perspectiva, também (entre outras coisas), pois já tínhamos bastante experiência organizando, criando e conduzindo larps. É muito gratificante para a gente ver que esse objetivo, como tantos outros, foi alcançado!

Mas não precisamos confundir "deixar o amigo protagonizar" com "não fazer parte" e eu acho justíssimo incluir o Prado na lista de "fundadores" e organizadores do LabLarp, embora ele tenha executado papéis diferentes de mim ou do Jonny. :)

17 de julho 2013. Da esquerda para a direita: Mariana (minha companheira), Luiz Prado, Jonny, eu e Juliana Andrada (fotógrafa do lablarp em várias das edições e uma das Staff do larp Cegos)

3 - "Artigo questiona que o limite"
Reli o artigo e bem.... ele não questiona o limite, rs

Se bem me lembro, o que questionou o limite foi a repercussão do artigo. Talvez seja legal esclarecer isso também. (Uma das principais discussões acerca disso foi protagonizada pela amiga Viviane L. Costa que não participou do jogo, mas tomou contato com ele por meio da resenha). A citação aí é apenas um exemplo, a resenha provocou reboliço onde ela foi compartilhada, sendo grande responsável pela difusão do case do CEGOS ( que teve apenas 5 jogadores, mas conseguiu atingir muito mais gente graças a essa articulação da cena ;) e vai atingir ainda mais agora, com a entrevista :D )

3.1 - "o jogador que escreveu [o artigo] é jornalista... ficou um artigo bem intenso"
Entendo que haja um sentido em preservar as identidades dos jogadores durante o relato, mas no caso do artigo, o jogador está de partida já identificado. O Jogador em questão é o Luiz Prado - e atribuir o fato dele ser jornalista a qualidade do artigo é quase engraçado. (nada contra os jornalistas, hehehe) Luiz Prado fala com profundidade ímpar no artigo porque ele é um jogador de longa data, um pesquisador e um produtor, escritor e criador de larps. Não apenas um, mas certamento o mais ativo do Brasil. Jonny fala que participou de mais de 50 larps nórdicos no Canadá - e destaca a importância dessa participação na sua formação. Bom, o Prado esteve a frente, entre escrever e organizar certamente bem mais de 50 larps, seja trabalhando para a Confraria das Ideias, o Boi Voador, NpLarp, LabLarp ou em sua trajetória autoral (sua "cerreira solo", rs). Além disso, foi jogador regular - e continua sendo - por 3 anos antes de dar o ar da graça na escritura de seus próprios larps. Nessa trajetória de dedicação intensa ao larp, ele aplicou larps de sua autoria ou da autoria de outros, orientou autores e articuladores, dedicou-se a pesquisa teórica e prática da linguagem de diversas formas....

Não é a formação em jornalismo que dá mérito ao texto. É o envolvimento específico daquele jogador na cena e na linguagem do larp.

Se não há necessidade de preservar sua identidade, pois ela está declarada no artigo, não há necessidade de não fazer a correta atribuição de mérito ao autor/artigo. Ele ser jornalista não tem nada a ver com isso. (Nem sequer se trata de um texto jornalístico).

A resenha pode ser acessada aqui:
http://www.nplarp.com.br/2013/11/resenha-larp-cegos.html

4. "Na suécia Break and Cut não existem"
Opa...! Entendo que seu amigo sueco pode ter dito isso, mas acho que corremos um risco de sermos bastante imprecisos se publicarmos isso em uma revista científica sem a devida consideração.

Se não me engano, foi entre jogadores suecos que o Wagner Luiz Schmit ouviu que o larp Café Amargo, de Luiz Prado, deveria vir com regras de safewords (e não a preocupação ali nem era contato físico!). Foi na Suécia, certamente. O larp Sueco Just a Litte Lovin', apenas para citar um exemplo, faz uso das safewords. Talvez na comunidade do seu amigo, ou na época que ele jogava, não houvesse essa preocupação. Mas na Suécia há. Vale apenas esclarecer nesse sentido, para não passarmos uma ideia equivocada a partir de uma generalização.

- - -

Eu gostei muito da entrevista, principalmente do recorte entre o CEGOS e o Silence. Ganha-se muito focando casos específicos ao invés de tentar dar conta de toda a produção ou trajetória do sujeito (que no caso do Jonny, é também riquíssima).

Pessoalmente, eu acho muito legal aquilo que o Jonny disse no final, de não sermos uma ilha, e senti falta de falar um pouquinho mais do começo dele com o larp, (não somente o vampire larp com o grupo de circo), pra inspirar outras pessoas a começarem também. Ninguém começa sozinho, como um lobo solitário, rs. E às vezes, vendo de fora, dá essa impressão. Revelar essas interlocuções ajuda as pessoas a entenderem que elas também podem se engajar, produzir, assumir seus papéis - e que não estarão sozinhas. Mas é claro que o tempo também não permitiria um grande aprofundamento. Acabou mais aprofundado o processo mais recente, e isso é muito bom também. Silence é um jogo empolgante :D

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Wolves Don't Warn Twice

Wolves Don't Warn Twice,
comics for Fabulário International Issue #1, 2008
(Festa Literária Internacional de Paraty)

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Jogos e cultura, o preconceito persiste?

O texto a seguir foi produzido como parte das avaliações do curso A Complexidade do Sensível: um paralelo entre vídeo games e arte (Coursera - Unicamp, ministrado por Julia Stateri, Doutoranda, e Edson do Prado Pfutzenreuter, Prof. Dr., ambos do Instituto de Artes - Departamento de Artes Visuais). Está publicado neste blog com a data original, mas foi aqui acrescentado no dia 19 de maio de 2017.

Resolvi publicá-lo porque ele condensa parte de minha pesquisa a respeito das relações entre artes, jogos, RPG e larp, que ainda carecem de publicações referenciáveis - estando até hoje pulverizadas em discussões pela internet, anotações e palestras cujos registros foram perdidos.



A questão que ele responde é a seguinte

Com base nos conteúdos apresentados [referenciado na resposta], tanto na videoaula, quanto no texto do professor Roger Tavares, vocês acreditam que a resistência dos jogos serem vistos como parte da cultura ainda persiste? Por quais razões?

Sim, persiste.

Para mim, a razão mais forte é a apontada pelo professor Roger Tavares no artigo "Mi-mi-mi meus jogos não são cultura, eu não sou culto": os criadores, produtores, assim como os jogadores, não os identificam como cultura.

Não faltam argumentos teóricos que justifiquem o ponto de vista, mas enquanto público e produtores não se identificarem com o tema, não haverá ampla aceitação. Parte dessa recusa ou desinteresse dos envolvidos com jogos reconhecerem seu próprio lugar na cultura está relacionado com a velha polarização alta cultura X baixa cultura, popular x erudito. A identificação da palavra "cultura" como meramente um status, uma "tag" de elitização.

Parece faltar, primeiro, a estes agentes (produtores e jogadores) compreensão de que os jogos se tratam de peças culturais.

Parece haver também certo saudosismo, senão instinto de preservação nesse meio. Ao identificar os jogos como "apenas entretenimento" e repudiar o "status" de bem cultural, esses agentes parecem também querer manter longe dessa mídia determinados aspectos, temas e assuntos.

Sobre este tópico eu gosto sempre de citar Scott McCloud. Em sua trilogia teórica sobre quadrinhos -  em formato de quadrinhos! - ele nos conta uma anedota envolvendo o quadrinista Will Eisner. Segundo McCloud, Eisner defendia que os quadrinhos eram uma forma de arte. Certa vez, um colega de profissão se enfureceu com ele: somos vaudevilistas, não artistas!


Também David Cage, diretor dos games Indigo Prophecy, Heavy Rain e Beyon: Two Souls, da francesa Quantic Dreams apontou o mesmo problema, dessa vez especificamente sobre os jogos eletrônicos. No manifesto "A Síndrome de Peter Pan: A indústria que se recusa a crescer" (em inglês) ele problematiza a questão das temáticas e abordagens lançando desafios como "fazer jogos sem armas", "trocar a lógica dos desafios pela da jornada" e abordar temas com a mesma seriedade que séries e filmes o fazem.

A questão da "seriedade" e da identificação da linguagem com o público infantil não é novidade. Johan Huizinga já a aborda em Homo Ludens, de 1938, que os jogos são considerados "não-sérios", o que segundo ele seria um grande equívoco. (O jogo, para Huizinga, não se opõe a seriedade). A cultura, para o pensamento geral, seria uma coisa "séria, de adultos", enquanto o jogo seria "não-sério, de crianças". Este trabalho do autor é praticamente todo dedicado a desconstrução desse mito.

Na história da crítica de jogos, Huizinga é seguido por Roger Caillois , com Os Homens e os Jogos, de 1957. Mas na prática, os escritos dessa linha parecem interessar muito menos aos envolvidos em games - produtores e jogadores - do que o estudo focado especificamente em Game Design, com ares pesadamente mais industriais. Corrente esta que podemos ilustrar com a publicação Rules of Play, de Katie Salen Tekinbaş e Eric Zimmerman, mas que possui inúmeros outros representantes. Essa bibliografia, muito mais funcionalista, frequentemente se foca nas etapas de criação de um jogo e assume critérios de avaliação e legitimidade relacionados ao sucesso comercial desses produtos, deixando muitas vezes suas capacidades expressivas, quando muito, em segundo plano. (Aqui vale dizer e é curioso observar que Eric Zimmerman, mesmo sendo um dos principais representantes dessa linha teórica é hoje um dos produtores de games com maior visibilidade a se lançarem a experimentação da interface entre games e arte).

Apesar da resistência, o caminho para esse reconhecimento parece estar sendo bem pavimentado, seja por teóricos, seja pelos próprios produtores - ainda em sua maioria os produtores independentes. É provável que os jogos encontrem trajetória parecida com a dos quadrinhos: esse reconhecimento veio embasado pelas obras disponíveis na prateleiras, como pode-se observar hoje em qualquer livraria do Brasil e nos catálogos até mesmo das grandes editoras. A produção mudou. Antes eles eram associados apenas ao público infantil e as histórias de super-heróis, hoje é possível encontrar uma grande variedade de obras maduras, para os mais diversos públicos, que nada devem a grandes clássicos da literatura - alguns sendo inclusive eles mesmos considerados grandes clássicos da literatura. É o caso de Maus, de Art Spiegelman, que foi premiado com o pulitzer.

Na medida em que a produção de jogos avança para novos territórios, abre-se caminhos sobre eles. O reconhecimento dos jogos, eletrônicos ou não, como uma forma de cultura - e porque não, de arte - me parece necessariamente ligado ao amadurecimento de suas temáticas e abordagens, o que já está em curso, com excelentes representantes, e passa pela aceitação de produtores e público de que esses temas são bem vindos.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

7 elefantes, vídeo completo + artigo



Está fazendo 6 anos que eu apresentei meu TCC para o curso de Artes Visuais no Unicentro Belas Artes de São Paulo, sob orientação do professor Luciano Mariussi.

O vídeo nunca tinha sido compartilhado na íntegra na internet - e esse mês fui mostrar para alguém e decidi caçar o arquivo e finalmente disponibilizá-lo para a geral.

Aí está, 7:44 de delírio visual e montagem vertical naif...

Espero que agrade a quem ainda não conhecia e que traga boas recordações a quem já tinha passado os olhos por ele.

PS: os vídeos foram criados para monitor CRT, onde deveriam ficar instalados em loop.

PS2: Participaram da banca examinadora os artistas e professores Augusto Sampaio e Neide Jallageas

PS3: Vou ver se acho o trabalho escrito também, para compartilhar junto. Aqui está o link para o trabalho escrito. [atualizado 09/12/2015] Todos os devidos agradecimentos estão ali registrados. Me perdoem por não marcar aqui todos os envolvidos co-responsáveis pela realização desse trabalho

(originalmente compartilhado no facebook em 26 de novembro às 15:35 )