quinta-feira, 23 de março de 2017

Apenas um Jogo

O desenho animado Apenas um show tem esse nome engraçado. Na atração, protagonizada pelo gaio-azul Mordecai e seu parceiro inseparável, o guaxinim Rigby, jovens adultos trabalham em um parque em condições (sério) análogas a escravidão.

Rigby não se formou no ensino médio, Mordecai abandonou a faculdade de artes. Eles moram no emprego e nunca tem dinheiro para muita coisa. No dia-a-dia do parque, dividem a tela com eles um veterano faz-tudo, um chefe estressado, um herdeiro patético e outra dupla de amigos inseparáveis que são um pouco como os próprios protagonistas (às vezes mais fracassados, às vezes mais bem sucedidos)...

Apenas um show não é um nome justo. É um nome pejorativo. Seus protagonistas não são heróis, nem modelos a serem seguidos (ou são?). Mas aí cabem algumas perguntas: Apenas um Show é um dos desenhos mais bem sucedidos de sua geração - e junto com Hora de Aventura, talvez um dos mais longevos. Isso seria possível num desenho que, mais do que ser despretensioso, faz uma caricatura pejorativa de uma geração de jovens adultos que são - provavelmente - da mesma geração de seus criadores?


Qual é o motivo do sucesso intergeracional desse desenho? Eu não sei, mas devem haver muitas críticas por aí falado sobre isso.

Não sei quando foi que eu vi Apenas um show pela primeira vez, mas certamente, foi assistindo desenhos junto com a minha filha.

Depois de muitos anos acompanhando a série, eu arrisco uma resposta.

Assim como Hora de Aventura, Apenas um Show é sobre amadurecimento.

O heroico protagonista da Terra de Ooo começa a série muito mais novo do que Mordecai e Rigby - e os espectadores observam sua adolescência - lidando com a primeira namorada, com a ausência do pai e outras questões pertinentes a essa fase.

Em Apenas um Show, também temos uma narrativa sobre amadurecimento, mas os personagens - e dilemas - retratados estão em outra fase da vida: são jovens adultos.

O criador, JG Quintel, tinha apenas 27 anos quando Apenas um Show estreou em 2010.
Se o Finn de Hora de Aventura vive dilemas comuns a muitos adolescentes em um mundo fantástico, Mordecai e Rigby vivem aventuras cósmicas em um mundo muito parecido com o nosso. Eles encontram divindades contemporâneas como os guardiões dos formatos obsoletos, aqueles bebês imortais mal humorados e o espírito do basquete. São transportados para a "na base da amizade" (friendzone em inglês), atacados por segredos de um diário em forma de Kaiju, teletransportados para dentro de um celular, pulam de um helicóptero, ou lutam conta um ganso gigante.


Mas (quase) nenhuma das aventuras interdimensionais de nossos anti-heróis (que para serem anti-heróis não precisam bater em ninguém, falar palavrão ou andar acima do limite de velocidade, basta serem pequenos e desprezíveis protagonistas de um seriado "infantil" com um nome pejorativo).... nenhuma dessas aventuras interdimensionais são, na verdade, o que aparentam. São todas apenas metáforas coloridas (e vale notar a frequente mudança de atmosfera e cores no desenho quando elas começam) para esses problemas tão prosaicos e triviais que esses jovens, que começam a série com 23 anos, estão enfrentando.

A grande ironia em Apenas um Show é que ele não é apenas um show. É através dessas metáforas coloridas e divertidas que a série lida com experiências emocionalmente intensas. Aos olhos de um observador casual, é apenas um desenho de criança (como são também Hora da Aventura, Steven Universo e tantos outros), "apenas um show".


Apenas um Jogo


O desenho Apenas um Show é uma das inspirações para a programação que acontece de março a junho no Sesc Itaquera, APENAS UM JOGO.

E não é apenas por estarmos em um parque com "carrinhos de golfe". ;)

Todo último domingo do mês receberemos um larp no Sesc Itaquera.

Estamos em um parque. Através de metáforas, vivendo experiências emocionalmente intensas sobre amadurecimento e a vida adulta. Mas, para quem está de fora, parece tratar-se de "apenas um..." jogo.
Em março - neste domingo que se aproxima:

Boa noite, queridinhas.
de Matthijs Holter.
Neste larp, os participantes vivem um profissional criativo e suas mais adoradas criações, suas queridinhas. Eles estão juntos para seu último encontro porque o criador vai matá-las, uma a uma, despedir-se delas definitivamente.

26 de março, às 14h30na Sede Social (Sala de Convenções) do Sesc Itaquera.

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Em abril: Tribunal, de J. Tuomas Harviainen.
---- Soldados de um grupamento estão prestes a depor no tribunal militar sobre um crime do qual dois de seus companheiros são injustamente acusados.

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Em maio: Breu, com Eduardo Caetano
---- Uma família precisa lidar com seus fantasmas, literal e figurativamente. --------------

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Em junho: Panaceia, com Tadeu Rodrigues
---- Um partido político com representantes de todos os grupos sociais, para curar todos os males que afligem nossa sociedade.